STRESS
- ENTREVISTA EXCLUSIVA
Há exatos trinta anos alguns jovens amigos, oriundos de Belém do Pará, deram o ponta pé inicial a primeira banda de metal do Brasil, com o nome inicial de Pingo D’água, a banda mais tarde viria a ser conhecida em todo o país pelo nome de STRESS. Para comemorar os trinta anos de banda o STRESS está relançando seu primeiro álbum pela primeira vez em CD. Entrevistamos o “cabeça” da banda, o vocalista e baixista BALA, confira abaixo a conversa que tivemos com ele. HMB - Tudo começou em meados de 1975, nessa época a banda ainda tocava covers de bandas famosas, sempre em inglês. Em 1977 a banda finalmente adotou o nome de Stress, nessa época o movimento hard rock/heavy metal ainda estava engatinhado no Brasil, e foi justamente em Belém do Pará que nasceu a primeira banda de heavy metal do Brasil. Como foi o inicio de tudo, como vocês se conheceram, como decidiram montar uma banda de metal? BALA - A história do Stress começa quando quatro colegas de escola descobriram que tinham algo em comum, o rock. Sem mesmo saberem tocar nenhum instrumento resolveram montar uma banda pra tocarem suas músicas prediletas. Cada um escolheu seu instrumento e começaram a aprender a tocar durante os primeiros ensaios. No início, devido à limitação técnica dos músicos, o repertório era composto de canções simples de bandas como: Beatles, Stones, Creedence, Bad company , Nazareth e outros na mesma linha. O nome provisório da banda era Pinngo D’água, graças ao formato do bumbo da antiqüíssima bateria da marca Pingüim, que não era redondo, tinha a forma de uma gota d’água deitada. Naquele momento não pensávamos em nada sério, era só diversão de fim de semana. Mas, as coisas começariam a mudar em breve.
O primeiro show oficial da banda, já com o nome Stress, aberto ao público, aconteceu no dia 10 de outubro de 1977, dia da primeira reunião dos roqueiros de Belém. Era nos shows do Stress que a cada vez uma maior legião de admiradores do rock se encontrava para curtir e viajar na idéia de que estavam assistindo aos seus verdadeiros ídolos através das interpretações feitas pelo Stress dos maiores clássicos do rock mundial. Foi a partir daí que a banda começou a ganhar popularidade e a cumplicidade dos fãs, que ajudavam na venda de ingressos, afixação de cartazes, distribuição de panfletos e o que mais fosse necessário. Éramos uma verdadeira irmandade, unidos pelo objetivo da disseminação do movimento rock de Belém. HMB - Que tipo de preconceitos vocês sofreram por fazer algo que não era “normal” para a época? BALA - A principal dificuldade era conseguir um bom local para a realização dos shows, pois, já naquele momento havia uma imagem estereotipada do roqueiro, que era uma pessoa alienada, drogada e possivelmente violenta. O fato é que os shows do Stress arrastavam cada vez mais um número maior de pessoas, lotando teatros e ginásios. Isso despertava um pouco de inveja na classe artística local que ralava pra realizar seus projetos e não tinha o retorno de público nem de longe comparado ao dos shows do Stress. Havia até uma velada conspiração pra dificultar a efetivação das pautas nos teatros da cidade. Tudo inútil, pois os teatros logo foram trocados por ginásios, avenidas e estádio de futebol, já que os primeiros não comportavam mais o público da banda. Ao contrário do que eles alegavam, não havia nenhum registro de violência entre os presentes. HMB - As primeiras composições da banda foram em inglês, somente depois decidiram aderir ao português e adotar a língua pátria como idioma oficial. Como se deu essa escolha? BALA - Devido às influências das bandas estrangeiras começamos a fazer as letras em inglês, pois, todos achavam que a sonoridade da língua era adequada ao rock pesado, ninguém tinha aquela paranóia que existe atualmente de que tem de cantar em inglês pra fazer sucesso lá fora, era por pura convenção estética, mesmo. Na primeira vez que tocamos “Mate o Réu” (Go to hell) ao vivo (1979), em um festival de música, fomos muito elogiados pelo estilo adotado e pela própria composição, todos esperavam ansiosamente para ouvir como seriam nossas próprias composições. Mas, a pergunta era inevitável: “Do que fala a letra?”. Foi a partir daí que resolvemos compor em português, queríamos que todos entendessem as mensagens das letras. Sabíamos que o desafio seria ainda maior - rock pesado, em português!?, teríamos de compor letras com conteúdo interessante, cuja sonoridade e grafia não ficassem tão rebuscadas. Foi um processo difícil e trabalhoso, mas, no final das contas nos rendeu um diferencial a mais. Podemos falar de nossa realidade, nossos problemas, injustiças sociais, externar nossos sentimentos e ser compreendidos facilmente pelos nossos irmãos brasileiros. Procuramos abordar temas do cotidiano de pessoas comuns, como nós somos, sem viajar na história de outros povos de épocas distantes que nada acrescentam em nossas vidas atuais. HMB - Podemos notar uma influência fortíssima do Judas Priest nas músicas do Stress, o Judas realmente foi a maior influência da banda? Que outras bandas influenciavam o Stress na época? BALA - Passamos por várias fases, pra cada uma delas tivemos individualmente maior influência dessa ou daquela banda. No início ouvíamos especialmente Sweet, Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabath. Como ainda não pensávamos em composições próprias, serviram mais como base de conhecimento harmônico e melódico do que propriamente como influência direta. Quando ouvimos Judas Pela primeira vez (o tecladista Leonardo Renda trazia vários discos da Inglaterra antes de serem lançados no Brasil), percebemos que era aquela linha musical que gostaríamos de seguir: pesado, trabalhado e melódico. Porém, tinha algo em nossas mente que dizia que faltava alguma coisa pra ficar perfeito, “Temos de ser mais rápidos e mais pesados do que qualquer outra banda no mundo”, “Vamos tocar aquilo que gostaríamos de ouvir” Foi com esse pensamento que começamos nossas primeiras composições. Ainda sem saber tocar direito nem mesmo violão, eu era só vocalista na época, tomei a iniciativa de começar as composições. Parece incrível, mas, consegui compor todas as músicas do primeiro disco, rifs e arranjos, com um conhecimento básico de violão, que adquiri observando os caras da banda tocarem. O André Chamon, batera, se encarregou de fazer as letras, por sinal, fez um ótimo trabalho. Essa parceria é responsável por 98% das composições da banda. HMB - No final da década de setenta começaram a surgir as primeiras “crias” do Stress, algumas bandas começaram, por influencia de vocês, a tocar e fazer show agitando mais a cena de Belém. Que outras bandas da época você destacaria? Alguma delas ainda está na ativa? BALA - O primeiro tabu que quebramos foi o de que seria impossível para qualquer banda paraense interpretar os clássicos do rock mundial sem passar vergonha. No nosso primeiro show abrimos com “Rock Bottom”, do U.F.O., musica de dificílima execução para os padrões da época, especialmente para os guitarristas. Mas, tínhamos um gênio na guitarra. Pedro Valente conseguia reproduzir com perfeição riffs e solos, qualquer que fosse a dificuldade. Com o passar do tempo e a seqüência de shows os até então espectadores começaram a articular a criação de suas próprias bandas, pois viram que a barreira do impossível foi quebrada. Quando aparecemos tocando nossas músicas, rock pesado e em português, não tínhamos idéia de que estávamos abrindo as portas pro heavy metal nacional. Foi mais um tabu quebrado, pois ninguém daqui de Belém tinha ouvido falar de uma banda brasileira que fizesse aquele tipo de rock. Imaginávamos que deveria haver uma porrada delas em são Paulo, no Rio e em vários outros lugares do país, cujos discos ainda não haviam chegado por aqui. O fato é que as bandas covers que já existiam começaram a compor. A primeira delas foi o Apocalipse, cujo guitarrista é o atual guitarrista do Stress Paulo Gui, que fazia um som bem parecido com o nosso, porém, mais simples, sem muitas passagens e variações, teve influência direta do Stress, como eles mesmos dizem. A partir daí começaram a surgir bandas nos mais diferentes estilos: punk, blues, rock’n’roll..., todas determinadas a tocar suas próprias músicas. Hoje nenhuma delas está na ativa. Entretanto, acho que o papel do Stress nesse processo foi o de mostrar a todos eles que era perfeitamente possível que cada banda tivesse sua personalidade sonora. Atualmente a cena roqueira de Belém é uma das mais fortes do Brasil, centenas de bandas de todas as tendências do rock se apresentam no circuito de bares, teatros, praças, casas noturnas e onde mais der. A qualidade sonora e de composições é excelente e o público prestigia os shows. Pra quem acha que Belém é um pacato vilarejo, no meio da selva, onde os onças e jacarés cruzam as ruas e dormem dentro dos casebres, temos centenas de bares e casas noturnas embaladas pelo rock local e freqüentadas por lindas garotas de todos os tipos (loiras, morenas, ruivas e índias também), com a vantagem de podermos ficar até de manhã, embriagados ou não, sem sofrer a violência dos grandes centros. Se hoje Belém é a cidade do rock, muito se deve à semente plantada pelo Stress, esse reconhecimento me é transmitido sempre que encontro com algum músico da nova geração.
Usamos barbantes e fita adesiva pra deixa-la armada. Recebemos a informação de que todo o equipamento prometido (bateria, efeitos, pedais, instrumentos..) deveria ser alugado. Finalmente começamos a gravar, tínhamos de ser rápidos, a grana tava curta e a hora de estúdio era uma facada. Começamos a perceber que os caras não manjavam nada de gravação de rock pesado. Chegaram ao cúmulo de propor que tocássemos sem distorção, que eles dariam um jeito de colocá-la na mixagem. Tratamos de fazer nossa parte, tocamos como se estivéssemos num show , com toda fúria e crueldade que as músicas pediam, afinal, naquele momento estávamos registrando anos de trabalho e defendendo nossas idéias e pontos de vista não só sobre a música em si, mas, sobre o cenário social injusto para a maioria das pessoas. Gravamos tudo em 16 horas, foi meio “nas coxas” mesmo, não tínhamos mais grana pra pagar outras horas de estúdio e ainda teria a mixagem. Quando tudo terminou tivemos a certeza de que os caras não estavam preparados pra gravar rock pesado. Ficamos extremamente decepcionados com o resultado, esperávamos algo compatível com o que estávamos acostumados a ouvir. Não havia mais nada a fazer, não tínhamos mais recurso pra refazer qualquer coisa, nem pra pagar as horas extras de mixagem. Esperamos o técnico de som ir no banheiro e fugimos com a fita mixada. Relutamos muito em prosseguir com a produção desse disco, tamanho nosso desapontamento. Resolvemos, então, fazer uma tiragem mínima de 1000 cópias, só pra termos um registro oficial das músicas e não jogar fora a grana já investida. Juntamos mais dinheiro e fizemos a prensagem. O show de lançamento aconteceu no estádio do Payssandu, no dia 14 de novembro de 1982, para uma platéia estimada em 20.000 pessoas, um record absoluto que persiste até hoje para eventos musicais locais. HMB - Como ou por intermédio de quem o disco do Stress foi parar nas rádios do Rio? BALA - Não é de hoje que a disseminação de informações entre os roqueiros é de uma eficiência espantosa. Antes dos discos chegarem no Rio, um roqueiro daqui mandou um fita cassete para um fanzine de lá que se encarregou de fazer cópias e distribuir para os seus associados e leitores. Dessa forma a coisa foi tomando proporções nacionais, de mão em mão de zine em zine, até chegarmos às revistas especializadas em música, foi um processo rápido. Numa viagem de fim de ano ao Rio, o André deixou algumas cópias do disco em duas lojas, só não tenho certeza de que foi de lá que as rádios conseguiram suas cópias, porque não tínhamos feito esse trabalho de divulgação, isso nem era necessário, naquela época a rádio tocava tua música espontâneamente, sem a necessidade de visitas e/ou acertos comerciais, ainda havia o sincero interesse em veicular obras com algum conteúdo. Isso também acontecia aqui em Belém, cansei de ouvir nossas músicas , extremamente pesadas e fora do contexto, tocando na programação normal das rádios locais, que enchiam nossa bola e se orgulhavam de ter o disco de uma banda de rock paraense. Cara, hoje em dia, se tu não “molhares a planta” leeegal... (jabá com açaí), eles te mandam logo pro setor de marketing, véio. HMB
- Como todos sabem o Stress freqüentou por muito tempo os eventos
do “Rock Brasil” que aconteciam no Circo Voador no Rio,
mas foi graças ao Stress que aconteceu depois a “primeira
noite de heavy metal do disco voador”. Como se deu e de quem foi
essa idéia? Não lembro de todos que “tocariam” naquela noite, mas, recordo que fiquei impressionado com a competência musical do trio Água Brava, a guitarra Gibson do excelente blues man Tony roqueiro (não conhecíamos instrumentos, amplificadores e/ou qualquer outro equipamento importado). Porém, uma coisa eu pude observar muito bem: ninguém tocou rock pesado, foi rock’n’roll e blues o tempo todo. O Circo tava “até o talo” de roqueiros (muita garota bonita, também), tinha nego pendurado nas estruturas metálicas que sustentavam a lona. Antes dos shows teve a exibição de um vídeo do Iron Maiden, foi emocionante pra todos, era a primeira vez um vídeo da banda era exibido no Brasil, foi o que disseram, eu acreditei. Estávamos apreensivos, pois sabíamos que o nosso som era completamente fora daqueles padrões apresentados pelas outras bandas, até o Dorsal Atlântica, esse mesmo que vocês conhecem, se apresentou tocando rock n’ roll e alguns covers do Judas com uma levada bem diferente do original. Chegou nossa vez, abrimos o show com “Mate o Réu”, a resposta do público foi imediata, era “aquilo” que eles queriam ouvir, “porrada sêca na orelha”. Fiquei surpreso em ouvi-los cantando as músicas, os roqueiros cariocas sabiam as musicas do Stress. No final da última música, “Sodoma e Gomorra”, a emoção falou mais alto: Olhei pro André e ele já estava tocando em pé, os olhos dele esbugalhados de adrenalina anunciavam o que viria. Não combinamos nada, entrei com o cabo do baixo no meio da bateria, “varri” pra direita e pra esquerda, voaram microfones e pratos, na mesma o André saiu chutando e empurrando o que sobrou de pé da bateria. Quando tudo estava no chão, pulei com o baixo e dei-lhe uma cacetada no chão. Só tem um detalhe: os instrumentos foram alugados pra gente. No final de tudo, o silêncio foi sinistro, numa fração de segundos percebi a besteira que tínhamos feito, imaginei o pior quando ouvi uma explosão sonora de vozes (igual quando sai um gol) e vi pessoas invadindo o palco. Naquele momento achei que fossemos levar um bocado de porrada, fechei os olhos e protegi o rosto instintivamente quando fui seguro pelas pernas. Pra minha surpresa e alívio percebi que os “caras” tinham adorado aquela onda, fomos levantados em seus ombros e exibidos como troféus, de um lado a outro do palco. Foi um momento inesquecível pra nós, poucos artistas no Brasil experimentaram uma situação semelhante. Muitos gritavam que éramos o Judas brasileiro e pela primeira vez fomos rotulados de heavy metal, “a primeira banda de heavy metal do Brasil”, dito pelos cariocas que lá estiveram. Depois disso compreendi a razão de tanta expectativa em torno da nossa apresentação, ao contrário do que imaginávamos, não havia nenhuma banda no Rio que tocasse heavy metal, nem cover e muito menos próprio. Mais tarde nos surpreenderíamos ao saber que nem no Rio e em qualquer outro lugar do país se fazia algo do gênero. Só pra esclarecer, a produtora do Circo, Maria Juçá, felicíssima com o sucesso do evento disse que a produção pagaria os danos com os instrumentos. Ainda bem!
Consegui afinar em menos de 10 segundos, foi pura sorte ou milagre, voltei certinho na retomada da parte seguinte, aí a galera que já estava agitada com aquele improviso interativo, virou bicho, véio. Foi um detalhe de que me lembro até hoje. Nessas alturas tínhamos assumido rótulo de banda de heavy metal e o posto de pioneiros. Dessa vez não quebramos nada, apesar da galera estar esperando por isso. Os caras do som estavam todos a postos atrás do palco pra evitar a quebradeira e o Tony Roqueiro pediu “pelo amor de Deus” pra que o deixássemos tocar dessa vez. Ele fez o show dele, logo depois do nosso, acho que não foi uma boa idéia, a galera queria ouvir mais peso, estavam possuídos pelo espírito do metal. HMB
- Em 1985 a banda conseguiu seu primeira contrato com a gravadora Polygram
para gravarem seu segundo álbum “Flor Atômica”.
Esse disco foi gravado com uma nova formação e finalmente
lançou a banda nacionalmente. Como foi esse período? Vocês
esperavam que o Stress pudesse ganhar o Brasil em tão pouco tempo? O produtor João Augusto, hoje presidente da Warner, através de sua produtora (Deck Produções) entrou numa parceria com a Polygram para a produção do disco. Antes, porém, ele fez uma minuciosa pesquisa com produtores de shows e eventos pra obter à indicação unânime de que o Stress seria “a banda” para o seu projeto. Um pouco antes de recebermos a confirmação da Polygram fomos convidados pra compor a coletânea SP Metal, mesmo não sendo paulistas. Mas, tudo se confirmou e teríamos um disco só nosso, com o apoio de uma multinacional, isso era fantástico, estávamos a menos de um mês morando no Rio e já tínhamos conseguido tal proeza. O rítimo de composições acelerou bastante, precisávamos de 10 músicas pra compor o disco, a gravação tinha data certa pra começar. Resolvemos incluir as músicas Mate o Réu e Sodoma e Gomorra do primeiro disco, pois além de serem cultuadas pelos roqueiros, tínhamos em mente que poucos no Brasil as conheciam, pelo fato de termos feito 1000 cópias daquele disco e boa parte delas foram consumidas em Belém. A gravação foi corrida, não havia muita verba praquele projeto. Tivemos a infelicidade de nos deparar com um problema técnico durante a gravação das guitarras, os auto-falantes do amplificador de guitarra estavam estourados e não seguravam a potência necessária pra dar aquela distorção “disgracenta” que precisávamos pra dar peso às músicas. Conseguimos apenas uma modesta saturação, o que foi uma pena, pois fico imaginando aquelas músicas tocadas com uma distorção de verdade. Não tinha como trocar a caixa, era madrugada e o estúdio era lá na Barra, perderíamos horas preciosas de gravação, já que naquele dia estávamos preparados e programados somente pra gravar as guitarras, nada podia ser adiado. Ainda tivemos outro problema, que só foi percebido quando pusemos o disco pra tocar, a faixa "Forças do Mal" veio sem o vocal, o técnico de edição selecionou o BG, a versão sem voz que se costumava ter não sei exatamente o porquê, talvez pra fazer colocando a voz em programas de tv ou coisa parecida. Como a música tem uma base fantástica, toda trabalhada, passou como instrumental, quase ninguém sabe disso (há dois anos botei voz nela e virá assim no relançamento do Flor Atômica). Contratempos à parte, era grande a expectativa em torno desse lançamento, afinal, seria o primeiro (e único) disco de heavy brasileiro lançado por uma gravadora multinacional. As revistas, jornais e rádios deram um bom apoio promocional e teceram críticas elogiosas ao disco e à banda. Fizemos até apresentações em alguns programas de tv, inclusive o da Xuxa, quando era na tv Manchete. Porém toda a publicidade conseguida foi aquela em que não se gasta nada, sabemos que os programas de ponta nas principais redes de tv do país carecem de um investimento financeiro (o famoso Jabá), que hoje e sempre fez parte dos custos de divulgação de qualquer artista. A Polygram não reservou nenhuma verba de divulgação para o Flor Atômica, se hoje ele é conhecido por uma boa parte dos roqueiros brasileiros, deve-se ao interesse e o apoio que as revistas especializadas e os fanzines (com seu trabalho heróico) deram à essa obra. HMB - Ouve uma época em que a mídia passou a privilegiar bandas de rock mais calmas e com letras mais românticas e ou juvenis, o Stress não aceitou mudar seu estilo e se manteve sempre fiel ao heavy metal. Você acredita que ouve algum tipo de preconceito para com a banda pelo fato de ela não fazer parte do eixo Rio-São Paulo? BALA - Não sei ao certo se o fato de sermos banda de heavy metal interferiu em algo, já que as outras bandas de rock nacional, que costumavam abrir nossos shows, estavam em todos os principais programas de tv em rede nacional. O fato é que ficamos à margem da grande mídia, talvez essa seja a sina do rock pesado, não fazer parte dessa “máfia” fonoindustrial que quer ver o retorno imediato em detrimento da qualidade. Foi visando essa resposta financeira que as gravadoras começaram a interferir na criação musical da maioria das bandas. As palavras de ordem eram “ser comerciais”, o que significava fazer e lançar músicas de fácil aceitação e veiculação radiofônica. Pra deixar de enrolação, músicas descartáveis, mesmo. Poucas bandas conseguiram se adequar ao “esquema” e preservar a qualidade. Guitarra distorcida? era palavrão, tinha de ser o mais leve possível, se fosse com violão era melhor ainda. Recebemos a sugestão do nosso produtor pra "aliviar" mais o peso das músicas para um próximo disco. Não havia como o Stress entrar nessa. Em respeito às nossas crenças, valores, ideais e, principalmente, aos nossos admiradores espalhados por todo o país decidimos que ficaríamos de fora da “panela”. Por conta dessa decisão não renovamos o contrato com a gravadora. Não acredito que tenha havido algum tipo de preconceito por sermos do norte, seria o fim da picada. O preconceito havia, sim, e ainda há, era contra o heavy metal, o rock pesado em geral, especialmente depois daquela palhaçada de cobertura que a Globo fez do Rock n’ Rio 1, quando explorou o lado ruim do comportamento agressivo de alguns roqueiros, ao qual deu uma conotação pejorativa, criando, então, o estereótipo dos chamados “Metaleiros”. A partir daí deu-se o enfraquecimento progressivo do movimento metal no país, o metal se partiu em várias sub-partes “diferentes” e, para muitos, divergentes entre si: Power, Death, Black, Speed, Trash... A despeito disso, nos anos sub-sequentes viria uma ótima safra de bandas brasileiras de rock pesado. HMB - Ainda nessa época começaram a surgir muitas bandas de heavy metal com tendência mais pesada, especialmente em Minas Gerais surgiram bandas como Overdose, Sarcófago e o Sepultura. Enquanto isso no eixo Rio-São Paulo, surgiam bandas como Centúrias, Harppia, Dorsal Atlântica, Atomica, Ratos de Porão, Sextrash, Anthares e muitas outras, em que grau o Stress participou desse movimento exclusivamente “metal”? BALA - Apesar do surgimento de bandas pesadas em todos os cantos do país o movimento perdeu força, pelo “racha” que aconteceu no movimento, refletindo diretamente na quantidade do público que costumava freqüentar os shows. Havia até uma “richa” entre admiradores de estilos diferentes, surgia aí o Radicalismo, a pior “praga” que o Rock já enfrentou. O Stress, pela sua história de pioneirismo e respeito conquistado, era uma das poucas bandas que podia tocar em qualquer tipo de evento, desde os mais pops (com as bandas do Rock Brasil) até os mais undergrounds (com hardcores, punks, trashers...). Nesse contexto o Stress ainda representava a possibilidade de uma banda pesada dividir o palco com artistas consagrados da musica brasileira, sempre tocando para um público numeroso e variado, tirando aquela falsa imagem criada pela Globo de que o Metal era sinônimo de violência, vandalismo, radicalismo e mediocridade musical. Éramos bem recebidos por todas as tribos, fizemos muitos amigos nas várias vertentes do Rock, pois sempre levantamos a bandeira do rock pesado como uma evolução do bom e velho Rock n’ roll, violência só no palco. Tínhamos em mente que o rock pesado brasileiro poderia ganhar as rádios e lotar estádios sem perder sua essência e filosofia. Apostávamos nisso, pois a diferença musical, sonora e cênica das bandas pesadas (que tinham como referências as performances de Iron, Scorpions, Judas etc...) era gritante quando se apresentavam ao lado de Legião Urabana, Kid Abelha, Titãs, Lobão e outros do gênero, em festivais de rock que ofereciam aquela mega-estrutura que dava prazer em tocar. Mas, o radicalismo foi dominando a cena e poucos conseguiram superar a fase difícil que estaria por vir. Tornar-se-ia impossível a convivência pacífica entre as diversas facções do Metal. HMB - Depois de 1987 a banda desapareceu, não gravou mais nenhum disco, mas continuou fazendo alguns shows, o que de fato ouve nessa época? Qual o motivo de a banda não gravar mais nenhum álbum? BALA - Por não abrirmos mão do estilo pesado não conseguimos gravar um outro disco pela gravadora. Vivíamos exclusivamente da grana dos shows e precisávamos nos manter morando no Rio. Não podíamos sobreviver só com a grana dos shows alternativos, que, além de pouco freqüentes, não rendiam bons cachês. Como estávamos fora da “panela” nossa participação em eventos maiores começou a diminuir. Ficou impossível continuar morando no Rio. Resolvemos dar um tempo e esperar uma reviravolta no cenário musical vigente, tínhamos esperança de que chegaria o dia em que as bandas voltariam a ter autonomia nas composições e conseguir bons contratos pelo seu próprio som, sem cabrestos e/ou castrações. Se morássemos mais perto do Rio ou São Paulo acredito que teríamos resistido mais. O nosso maior problema é que nossas famílias (nosso apoio nas horas difíceis) estavam a 3000 km de distância, de onde estou escrevendo agora (Belém do Pará). HMB - Somente em 1995 a banda se reuniu e gravou de forma independente o raríssimo Stress III, como foi a recepção desse disco? Ele foi lançado em algum outro estado além do Pará? BALA - A reviravolta no cenário musical não aconteceu, assim, tomamos rumos diferentes, afinal, a vida não para. Passaram-se quase 8 anos e nos reunimos numa das férias do André, aqui em Belém, em 1995. Resolvemos fazer uns ensaios pra matar a saudade, dali surgiram algumas composições que decidimos gravar em estúdio, uma demo. Como as demo tapes já haviam dado lugar aos demo cds, achamos por bem registrar as musicas num cd independente, o Stress III. Só 500 cópias foram feitas e rapidamente vendidas. Trata-se de um disco experimental, com muito hard rock, rock n’ roll e umas pedradas também, tem músicas excelente e umas duas ou três que fizemos meio na sacanagem mesmo. Tal qual os outros dois é uma raridade também, muito procurado. Ainda fizemos um belo show de lançamento em Belém e outro no Rio, mas foi só isso, o mercado tava o pior possível pro rock em geral e estávamos cheios de compromissos particulares. De lá pra cá a banda vem fazendo um show por ano em Belém, sempre com casa cheia, a legião de admiradores da banda vem aumentando graças aos roqueiros da nossa geração que se encarregam de mostrar nossa obra e levar os filhos aos shows. HMB - O titulo de “a primeira banda de thrash metal do mundo” foi adotado em que faze da carreira do Stress? Afinal, em 1975 quanto tudo começou, ainda nem existia esse rótulo. BALA - Quando começamos a compor não nos preocupávamos com os rótulos, mesmo porque eles não eram importantes, do progressivo ao pesado, tudo era simplesmente Rock. O que nos tornou diferentes foi a ousadia de sempre querer dar o passo maior que as pernas. A ordem era: “Vamos tocar aquilo que gostaríamos de ouvir, temos que ser mais rápidos e mais pesados do que qualquer outra banda no mundo”. Era, sem dúvida, um pensamento arrojado e um pouco prepotente, coisa de adolescente sonhador. Não tínhamos nenhuma pretensão de inventar nada, foi tudo obra do destino. Quando começaram os boatos que éramos os primeiros a fazer metal no Brasil custamos a acreditar, passaram-se alguns anos até assimilarmos essa informação e assumirmos tão honroso posto. Daí veio o título de pioneiros na América Latina, outra surpresa pra nós. Agora surgem os rumores que somos os primeiros no Thrash mundial, isso já é um pouco demais. Acho que as circunstâncias e a precariedade da nossa gravação de 82 possam ter incluído espontaneamente alguns elementos do Thrash no disco, por conta disso estamos nos candidatando a mais um título, qual será o próximo? Heheheh!!! Por enquanto estamos naquela fase intermediária entre os boatos e a comprovação. O fato é que se isso se confirmar oficialmente será mais um motivo de orgulho pra nós roqueiros de Belém e de todo o Brasil. Pessoalmente, apesar de conseguir ver alguns elementos do Thrash em nossas composições, não considero o Stress como uma banda de Thrash, somos uma banda de “Metal Amazônico”, logicamente com toda a influência do tradicional heavy inglês (afinal , os caras lá inventaram toda essa onda), mas, com uma identidade bem nortista, com as peculiaridades, expressões e, sobretudo, refletindo a realidade da nossa gente amazônica. HMB - O Stress chegou a sair do Brasil para se arriscar no exterior? BALA - Assim como toda banda que começa tínhamos o sonho de tocar junto com nossos ídolos internacionais. Naquela época , final dos 70, não vinha ninguém de fora pra tocar no Brasil, imaginem se algum dia viriam à Belém. Mas, quando começamos a ficar conhecidos no Brasil, nossa prioridade era o público brasileiro, queríamos conquistar o respeito e o reconhecimento dos roqueiros do Brasil, estávamos muito empenhados em conseguir meios para tocar no maior número de cidades brasileiras possível. O sucesso internacional para nós não era prioridade, mesmo porque, achávamos que teríamos de conseguir uma estabilidade financeira e com ela uma infra-estrutura de pessoal e equipamento que nos dessem condições de arriscar numa jornada arrojada de nos fixarmos em outro país pra tentar a projeção mundial. Talvez fosse até necessário gravarmos algo em inglês, o que era absolutamente contra nossa filosofia de fazer metal genuinamente brasileiro, a maioria das bandas brasileiras estava fazendo dessa forma, pra facilitar o “entendimento”, Porém, não chegamos até esse empasse, pelos motivos já citados paramos nossa trajetória no meio do caminho, sem termos feito alguma apresentação internacional. HMB - Você acredita que a banda possa ter influenciado as primeiras bandas de thrash do mundo, inclusive bandas que hoje são clássicos do estilo? BALA - Acho isso extremamente difícil, não tínhamos a facilidade e os meios de divulgação hoje existentes, nossos discos eram raros já aqui no Brasil, imagino que pouquíssimas cópias atravessaram nossas fronteiras a ponto de chegarem aos precursores do Thrash mundial. De fato, o que tenho conhecimento, o Sepultura se declarou influenciado pelo Stress em algumas entrevistas, até hoje eles quando indagados confirmam isso, esse é o único caso concreto de que tenho notícia e já é motivo de muita satisfação pra nós. Ainda lembro bem que estive em BH e a convite da galera do Sepultura fui ao estúdio onde eles estavam gravando o Bestial Devastation, seu primeiro trabalho dividindo um Lp com o Overdose. Foi um momento especial, enquanto eu ouvia as músicas, eu via nos olhares brilhantes dos garotos de 14 e 15 anos a expectativa sobre a minha impressão do som da banda. Ouvi faixa por faixa e me pronunciei: "É esse o som... vocês tão criando algo novo... porrada pura!... vai nessa que vocês vão arrebentar!". Aí, o Max disse: “Cara, o Bala do Stress gostou do nosso som”. Foi uma alegria geral no estúdio, todos nos cumprimentamos, eles me agradeceram bastante, nem precisava, eu tava sendo verdadeiro e... profético, hehehe! Dali, nasceria para o mundo o principal “herdeiro” do Stress. HMB
- Você continua fazendo show em Belém com sua nova banda,
a Zona Rural, fale um pouco dela? a que estilo ela se dedica? HMB - Quanto ao relançamento do primeiro álbum do Stress pela primeira vez em CD via Dies Irae, um selo da Alemanha, como se deu o convite? BALA - O contato foi feito com o André (bat) por um representante do selo no Rio. A idéia deles era relançar obras raras dentro da linha do metal. Não sei ao certo de quem partiu a iniciativa do convite, só sei que o cara tem um site especializado em bandas latinas de metal (www.metaleros.de) Pra nós se tornou interessante pelo fato de que uma distribuição mundial pode tornar a banda mais conhecida fora do nosso território. Trata-se de um disco histórico para o rock brasileiro e mundial, milhares de pessoas acessam o site da banda e questionam sobre os discos, como podem encontrá-los e etc. Com esse relançamento muitos bangers em todo o mundo terão acesso a essa obra. Pra adquirir esse disco a pessoa tem de acessar o site oficial da banda www.stress.mus.br. HMB - O Stress realmente acabou? Existe a chance de a banda voltar a se apresentar em circuito nacional? BALA - Por conta do relançamento do primeiro disco resolvemos voltar aos palcos, só no mês de maio faremos 4 apresentações em Belém, numa das quais gravaremos nosso primeiro DVD, ao vivo. Nesse momento em que escrevo já aconteceu a primeira. Mais de 3000 pessoas lotaram o Memorial dos Povos pra assistir ao show da volta oficial da banda aos palcos. Foi necessário o fechamento dos portões, pois a lotação estava esgotada. Portanto, roqueiros e bangers do Brasil, O STRESS ESTÁ DE VOLTA!..., pronto pra tocar, é só chamar.
Simultaneamente, 3000 pessoas aguardavam em outro local bem distante pelo show do Zona, isso num domingo. Temos dezenas de bares espalhados pela cidade onde as bandas locais se apresentam sempre para um grande público, com uma grande freqüência de belas garotas e ainda se pode ficar embriagado, amanhecendo nas ruas sem aquela ameaça de assaltos e violência que tomam conta dos ditos grandes centros. Isso aqui é quase um paraíso, véio. Sugiro pra galera mais nova que pretende seguir a trilha do metal e para aqueles que não conhecem a verdadeira história do heavy no Brasil, busquem as informações nos sites e revistas especializados, tirem daí as lições e os argumentos pra fortalecê-los diante das duras batalhas que se seguirão na difícil trajetória de quem se propõe a tocar o rock pesado. “Não Desista” (do Flor Atômica, Stress – 85) HMB – Algo Mais? BALA - Sim. Gostaria de, em meu nome e em nome de todas as bandas alternativas do Brasil, agradecer aos zines espalhados pelo país, desde os xerocados (década de 80) até os mais bem estruturados, pelo heróico e fundamental trabalho desenvolvido em benefício do rock brasileiro. O Stress e muitas bandas de expressão do movimento metal não teriam alcançado o reconhecimento sem essa “irmandade” formada entre Zines-Bandas-Bangers. Um “pesado” abraço a todos que leram essa entrevista (quase uma biografia), um em especial ao amigo Cássio Pagliarini e equipe do HMB que me deram essa chance de contar um pouco da minha história com o Stress. HMB - Bala, muito obrigado pela entrevista e sorte ao Stress nesse merecido retorno.
|