ULTRAJE
A RIGOR - Nós Vamos Invadir Sua
Praia
Por
Doctor Robert
Um
dos discos de maior sucesso da história
da música brasileira está
prestes a completar 25 anos do seu lançamento.
Lançado em 1985, com produção
de Pena Schimdt e Liminha, o lendário
ex-baixista dos Mutantes, “Nós
Vamos Invadir Sua Praia”, do Ultraje
a Rigor, conseguiu uma façanha
inimaginável, principalmente
para um artista estreante: quase todas
as suas faixas foram sucesso. O que
torna o feito mais incrível ainda
é que se trata de um trabalho
de qualidade, e não o habitual
lixo que costuma dominar as rádios
e programas de auditório, fontes
do famoso “jabá”
desde os mais remotos dos tempos. Ótimas
canções, criatividade
nas letras, abordando temas inovadores,
sempre tratados com muito bom humor,
participação especial
de outros grandes nomes do rock... Essa
soma de fatores, bem como outros tantos,
catapultou o álbum e a banda
ao status de maior sucesso do Brasil.
Vamos então relembrar um pouco
deste grande momento na história
de uma das melhores bandas do rock brasileiro.
Formada
em São Paulo no começo
da década de 1980, o Ultraje
teve em seus primórdios suas
guitarras divididas pelo vocalista (e
Ultraje em pessoa) Roger Rocha Moreira
e pelo grande Edgard Scandurra, que
também já fazia parte
do Ira! à época. Edgard
foi indiretamente o responsável
pelo nome da banda – certo dia,
buscando um nome para o grupo, Roger
pergunta a ele o que achava do nome
Ultraje e Edgard, meio distraído:
“Que traje? Traje a Rigor?”.
Chegaram a lançar um compacto
em 1983, com a música “Inútil”,
e fizeram sua fama na capital paulista,
tocando sempre com casa cheia por onde
passavam. Com o tempo, Edgard priorizou
sua outra banda, tendo sua vaga preenchida
por Carlinhos Castelo Branco. Completavam
o time o baixista Maurício Fernandes
(que depois passaria a assinar Maurício
DeFendi) e o carismático Leospa
na bateria. Após lançarem
mais um compacto, “Eu Me Amo”,
e de contrato assinado com a Warner
(WEA, na época), entram em estúdio
para gravar aquele que, mal sabiam eles,
tornar-se-ia um grande clássico
do rock brasileiro.
A
moral do Ultraje era tão grande
que logo na divertida faixa de abertura,
que dava título à bolacha,
havia a participação especial
no refrão de outros grandes nomes
do cenário rock da época:
Lobão, Ritchie, Léo Jaime
e Selvagem Big Abreu (do João
Penca). Teve direito até a vídeo
clipe exibido no Fantástico,
honra que até então só
cabia aos grandes medalhões da
música brasileira e a artistas
estrangeiros. “Rebelde Sem Causa”,
a segunda faixa, era uma singela homenagem
aos playboys, “filhos de papai”
que sempre tiveram tudo na mão.
Só a frase “como é
que vou crescer sem ter com que me revoltar?”
já vale a música toda.
O
bom humor e a diversão sempre
foram marca registrada da banda, e isso
fica ainda mais evidente em “Mim
Quer Tocar”, um belo sarro em
cima das canções de reggae
em inglês que abusavam das frases
começadas com o pronome “Me”.
“Zoraide” é um rockão
bruto, onde um machão assumido
não sabe mais o que fazer ou
dizer para se livrar de uma ex namorada
que ainda fica chicletando. “Ciúme”
encerrava o lado A e dispensa maiores
comentários: uma das melhores
do disco e um dos maiores hits da banda.
Abrindo
o lado B vinha “Inútil”,
que já era hit, tendo sido inclusive
uma espécie de “hino da
juventude” no movimento pelas
“Diretas Já”, com
o fim da ditadura militar. O que não
deixava de ser irônico, visto
que ela critica a alienação
política e cultural dos brasileiros.
Detalhe: o grupo manteve intacto o antológico
riff de guitarra original, criado por
Edgard Scandurra, um dos mais inspirados
do rock brazilis. “Marylou”,
outra faixa engraçadinha, era
cantada por Leospa e Maurício,
e tinha a participação
especial de Herbert Vianna, do Paralamas
do Sucesso nas guitarras. Foi talvez
o maior sucesso do álbum, tendo
tocado à exaustão, e ganhando
até mesmo versão especial
para o carnaval (num compacto, onde
o lado B era “Nós Vamos
Invadir Sua Praia”, também
em versão carnavalesca). Em tempos
de ditadura, era uma vitória
ver tocando nas rádios uma música
censurada, conforme podia ser lido na
contracapa, mesmo sem ter um palavrão
sequer – na edição
final, ao invés de cantar “cu”
a letra dizia que “Marylou botava
ovo pelo sul”.
A
boa “Jesse Go”, cantada
por Maurício, trazia a história
de um idiota que se tornou um sucesso
gigantesco e depois desapareceu. Infelizmente
essa é a imagem errônea
que muitos têm da própria
banda (provavelmente aqueles que nunca
sacaram qual é a deles, ou nunca
entenderam suas críticas e piadas).
Essa tocou pouco, bem como “Se
Você Sabia”, a canção
seguinte, que tratava de um assunto
delicado (a gravidez inesperada de um
casal de namorados) de forma bem humorada.
Encerrando, “Independente Futebol
Clube”, gravada ao vivo na Rádio
Clube, casa noturna de São Paulo
onde o Ultraje sempre se apresentava.
Na era do CD, o disco chegou a ser relançado
com algumas faixas bônus, como
as versões originais de “Inútil”
e “Ricota”, gravadas lá
nos primeiros tempos da banda, ainda
com Scandurra – esta segunda seria
regravada e lançada depois no
álbum “Crescendo”.
Havia ainda as versões carnavalescas
citadas acima.
O
que fica evidente, e já foi confirmado
em diversas entrevistas, inclusive dos
produtores, é que todo mundo
se divertiu muito fazendo o disco –
Liminha chegou a contar, em entrevista
à MTV, até sobre a famosa
brincadeira do balde apoiado sobre a
porta, que virava e derramava água
sobre quem a abrisse. E o público,
com certeza, divertiu-se ainda mais
ouvindo-o e assistindo aos shows. A
presença nas rádios, programas
de TV (em especial do saudoso Chacrinha)
eram cada vez mais esperadas. Os fãs
costumavam até apostar qual música
seria tocada, já que tantas eram
sucesso.
Depois
deste clássico, o Ultraje ainda
lançaria outro belo álbum,
“Sexo”, em 1987, desta vez
com Sérgio Serra nas guitarras
– Carlinhos gravou apenas duas
faixas: “A Festa” e “Prisioneiro”,
um legítimo heavy metal em português.
E houve ainda participação
especial de Sting (sim, ele mesmo) no
coro de “Terceiro”, e João
Barone, dos Paralamas, no solo de bateria
de “Maximillian Sheldon”.
Dando continuidade à discografia
viriam obras irregulares, alternando
grandes músicas com outras mais
fracas, e várias mudanças
na formação – passaram
pela banda o guitarrista Heraldo Paarman,
o baterista Flávio, o baixista
Serginho, e até mesmo Andria
Busic, do Dr. Sin, que aparece no clipe
de “O Chiclete”, do álbum
“Crescendo”.
Infelizmente
o Ultraje acabou sendo deixado de lado
pelo grande público, mas está
sempre vivo entre seus fiéis
fãs e seguidores. O último
grande êxito comercial veio com
o CD e DVD “Acústico MTV”.
Atualmente, acompanham Roger na formação
do Ultraje o baterista Bacalhau e o
baixista Mingau. O guitarrista Sérgio
Serra, que havia voltado no álbum
“Os Invisíveis”,
mais uma vez deixou o posto vago recentemente.
Em algumas canções inéditas
lançadas na internet pela banda,
neste ano, o velho amigo Scandurra assumiu
como convidado as guitarras ao lado
de Roger. Os fãs mais antigos
até chegaram a sonhar: quem sabe
com o fim do Ira! ele não pudesse
assumir mais uma vez a posição...
mas nas apresentações
ao vivo, quem tem prestado seus serviços
à banda é Marcos Kleine.
Que
o Roger e o Ultraje ainda fiquem por
muitos anos nos divertindo com seu rock
and roll, por pelo menos mais 25 anos...