NASI
- Onde os Anjos Não Ousam Pisar
Onde
os Anjos Não Ousam Pisar é
o novo disco solo do vocalista do Ira!
Na verdade, pode ser considerado o primeiro,
já que os outros ele gravou com
os Irmãos do Blues e eram discos
basicamente de...bem, de blues.
Dizem
que tem mais de ano que as músicas
estavam prontas e o projeto só
patinava. O premiado produtor Apollo 9,
que esteve por trás dos discos
do Mundo Livre S/A, por exemplo, assumiu
as rédeas e a Sony decidiu acreditar.
O resultado é um disco estranho
— o que talvez seja uma qualidade.
A
crítica gosta do Nasi, ele é
um sujeito legal. Eu estive com ele por
três vezes, um cara simples, normal.
Todos sabem que ele é grande conhecedor
da música nacional. No período
em que esteve com Marisa Monte ele introduziu-a
(ops) à Tim Maia, Julinho da Adelaide
e até ao Beto Guedes (argh), quem
sabe? Nasi tem um pé nesse passado
soul-rock-de-raiz-algo-caipira em alguns
momentos e, ao mesmo tempo, tenta se manter
ligado no que rola nas atualidades.
Ele
foi o primeiro roqueiro brasileiro a fazer
scratches ao vivo, no palco, durante a
turnê de Psicoacústica, o
cultuado disco do Ira! Foi um dos primeiros
do mainstream (afinal o Ira! já
tocou em abertura de novela da Globo)
a botar fé no rap nacional, produzindo
Thaide e DJ Hum. Enfim, o cara tem MUITA
informação musical.
E
tem uma voz legal, digam o que quiserem
os detratores. A voz para o rock deve
ter personalidade. Quer afinação?
Vai ouvir ópera! Taí Dylan,
Reed e Tom Waits que têm vozes detonadas,
Deus me livre! Uma coisa curiosa é
que o cantor usa vários efeitos
de voz nesse disco, e fica tudo bem legal.
Das
12 canções, apenas 2 não
são dele; uma é do Roberto/Erasmo,
outra é do Zé Rodrix com
Etel Frota. Tem uma versão de uma
dispensável canção
de Otero/Beiserman (?). As outras nove
são dele solo ou com parceiros.
É um disco feito entre amigos.
Musicalmente,
Nasi passeia por estilos, injeta elementos
e instrumentos estranhos em canções
de estilos diferentes; o disco tem hammond
e acordeon, trombone com surdina, flauta
transversal, atabaque e mellotron. Não
fossem alguns purismos, como no blues
'Eu não me canso de dizer' ou no
vaudeville de 'Você me Usou' ou
ainda no rock-orquestrado-maconheiro da
faixa-título, o disco chamaria
atenção de Beck (o músico
americano liquidificador-musical).
Letristicamente
falando, Nasi não tem a ingenuidade
de Scandurra e parece sempre querer soar
um tiquinho mais MACHO. Não é
de todo ruim, pois comete 'Pistola na
Mão' ("Eu sei o seu mal /
Seu mal é não dar")
ou 'Quero ser seu Homem' ("Não
quero me casar / Apenas quero ser seu
homem"), música levanta galera
com refrão facinho. A música
termina assim: "não fica doente
pela paixão, a mulher é
como sombra, se você corre atrás
ela foge, se você foge ela corre
atrás". O disco do Nasi é
pra quem ainda gosta desse tipo de graça.
Eu gosto.
Por:
Luiz Biajoni (www.verbeat.org/blogs/biajoni) |