CAPITAL
INICIAL - Gigante
O
rock bebe da fonte da juventude. O que
era bom ontem torna-se descartável
amanhã. E a ridicularização
espreita cada esquina, de olho no elógio,
a consolidação de carreiras.
Músicos, assim, dão graças
por pular as armadilhas e chegar ao segundo
disco. Digo isso porque diante desse quadro
o Capital Inicial é a banda especialista,
quase um Sun Tzu, na arte dessa guerra.
Mandamentos que conhece na raça,
depois ter passado do céu ao inferno.
Após ter sobrevivido à implosão
de uma banda formada na adolescência
por amigos e há cinco anos de coma,
entre 1993 e 98. Após chegarem
ao 11º disco - este Gigante - de
uma carreira de mais de 20 anos, em que
já transitaram entre os maiores,
os maus, os feios e os malvados.
O
céu a que me refiro é o
de um conjunto que compôs as melhores
músicas do rock dos anos 80 e que
consegue dar à luz seus melhores
discos 20 anos depois.
O
inferno a que me refiro é o da
interrupção dessa história
no meio de sua trajetória. O purgatório
de um recomeço do zero, no final
dos anos 90. Mas esse retorno foi com
o ótimo "Atrás dos
Olhos" (1998), que no muque venceu
o cabo-de-guerra do preconceito que vinha
de carona em qualquer notícia de
reunião de banda que fizera sucesso
na década anterior.
A
consolidação de uma nova
fase com o "Acústico MTV"
(2000), em que mataram um leão
show após show para chegar à
marca de sete dígitos de vendagem
- na época, artistas só
chegavam ao milhão em cópias
vendidas com hiper-mega-hits, o Capital
levou seis músicas tocando nas
rádios, dois anos e mais de 300
shows pra alcançar o patamar.
A
gravação de um trabalho
melhor ainda sob o céu turbulento
da perda de um dos integrantes originais
da formação, o guitarrista
Loro Jones, que desceu do palco do ginásio
do Gigantinho, em Porto Alegre, em dezembro
de 2001, para nunca mais subir.
A
tutela do posto a Yves Passarell e o imediato
"Rosas e Vinho Tinto" (2002),
que veio como o retrato de uma banda segura
do caminho que queria trilhar e, principalmente,
conhecedora das pedras dessa estrada.
Mas,
se por um lado, todas as conquistas pareciam
ao público naturais à banda
de rock brasileiro de maior procura nas
lojas de disco, enxergando a situação
pelo periscópio do quarteto a maré
não era tão favorável
assim.
Eram
eles que viam do palco que o público
- adolescentes em sua quase totalidade
- tinha que ser conquistado música
após música. Eram eles que
tinham passado pela experiência
de terem sido, 15 anos antes, uma das
bandas de maior sucesso do país
e terem atolado a carreira em areia movediça
da qual não viam escapatória.
Foram eles que arriscaram tudo o que haviam
conquistado com confiança num trabalho
novo, em músicas inéditas,
e não em espremer a obra anterior
e dilui-la em releituras do que um dia
fora sucesso.
"Vejo
quase como se estivéssemos começando
a nossa carreira. O Capital está
tendo a oportunidade de reescrever sua
história. É muito raro acontecer
o que aconteceu conosco. E é um
privilégio viver de rock no Brasil",
explica o vocalista Dinho Ouro Preto.
O
recomeço desta vez atende pelo
nome Gigante, e a responsabilidade da
banda se renova a cada passo. Eles sabem
que não têm muita margem
de erro para trabalhar. Sabem que os olhos
que os vigiam são menos tolerantes,
por tudo aquilo que foi exposto anteriormente.
E sabem, principalmente, fazer rock. Um
rock que neste caso ousa ser cru, elementar
- "sem teclados, sem percussão
- só os quatro tocando... E muita
guitarra!", resume Dinho.
Na
verdade, não é preciso mais
que esses pequenos detalhes para que qualquer
pessoa que os conheça saiba do
que se trata. Por quê? Porque o
Capital Inicial é uma banda com
estilo próprio. Ponto. A partir
disso são necessárias poucas
pistas para compor um panorama geral de
um trabalho novo.
Pelo
mesmo motivo, a riqueza da obra fica na
dinâmica imposta no trabalho, particularidade
em que os quatro - além de Dinho,
os irmãos Fê (bateria) e
Flávio Lemos (baixo) e o guitarrista
Yves Passarell - se especializaram nos
mais recentes trabalhos, desde a volta
da banda com a formação
original, em 1998. Um leque de possibilidades
concentrado neste Gigante que traz frescor,
crocância de banda zero quilômetro
num corpinho de 20 anos de estrada.
O
pontapé inicial do disco é
um acorde aberto de guitarra, seguido
de um rufo de bateria que abre espaço
para 10 minutos cravados de pancadaria
(pode cronometrar). Tempo suficiente para
três canções - recado
curto e direto que faz coro à letra
da primeira música, Instinto Selvagem:
"É preciso coragem pra recuperar
seu instinto selvagem… / …Não
importa quantos vão te escutar".
É
o leque que começa a se abrir na
música seguinte, Respirar Você,
onde você não mais bate a
cabeça, mas balança-a num
rock suingado que ganha potência
e volume no refrão.
Sem
Cansar, primeiro single e que ganhou um
clipe homenageando bacos e dionísios
escolados na Terra do Sol Nascente, fecha
a tríade pauleira inicial. E não
é fácil ouvi-la sem imaginar
uma multidão pulando num estádio,
entoando o "lalalalalalalá"
do refrão dessa versão de
"C'Est Comme Ça", dos
franceses do Les Rita Mitsouko.
O
Capital dirige o holofote para outra possibilidade
em Seus Olhos. Sobre uma de suas principais
características - a condução
melodiosa da
música pelo vocal de Dinho - o
grupo lamenta numa balada sombria o estrago
causado pela ausência de uma mulher.
Não
Olhe pra Trás mantém a estrutura
cadenciada da anterior, mas aqui ganha
cores saturadas dos anos 1970, solo de
guitarra em wah-wah para climatizar e
peso no refrão: "São
águas passadas / Escolha uma estrada
/ E não olhe pra trás".
Gigante
abre uma nova picada no caminho de Sexo
e Drogas, rock para quem curte chimbau
aberto e pé no retorno. E volta
a priorizar a elodia em Perguntas sem
Respostas. Linda, linda. Novamente a banda
segue a direção melódica
do vocal numa composição
típica da parceria inho-Alvin L.,
que
neste caso ganham o reforço de
Yves. Uma música para se ouvir
imaginando como seria legal se o Brasil
possuísse a tradição
dos singles, com a possibilidade de um
registro diferente, mais nu, desplugado,
nesta balada que reforça a característica
da banda de compor em violão. "Se
a música funciona no violão,
ela funciona em qualquer formato",
atesta Dinho.
Uma
nova cor no arco-íris surge com
Insônia quando, inesperadamente,
uma batida eletrônica (fruto da
mania do baterista Fê com o gênero:
"Finalmente ele conseguiu incluir
um drum 'n' bass", diverte-se Dinho)
abre caminho para a canção
mais intimista do álbum. São
os quatro da banda caminhando por estradas
próprias que se cruzam no refrão.
Maria
Antonieta leva o carimbo da fase recente
da banda, em que criam um personagem e
narram sua trajetória (quase sempre)
errante. Neste caso, embalados num rock
ensolarado e sempre em crescente, os dardos
são lançados na direção
da menina que batiza a canção
e de seu mundo roedor de shopping-center.
Vendetta
e Sorte, tangenciando os três minutos
cada, são duas pancadas de esfolar
as baquetas de Fê Lemos.
O
disco termina com uma balada-ode de Gratidão
ao amor e ao amparo. Pouco mais de 40
minutos que compõem mais um retrato
na prateleira de uma família com
duas décadas de história,
para a qual maturidade é sinônimo
de progresso. Enquanto nos errantes anos
iniciais o Capital provou ser uma banda
de excelentes músicas e discos
irregulares, neste novo período
os discos ganharam consistência
como obras e o trabalho ficou muito melhor
acabado. "Atrás dos Olhos",
"Rosas e Vinho Tinto" e, principalmente,
este Gigante não me deixam mentir.
Luiz
César Pimentel
Maio / 2004
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