O PODER CORROSIVO DA MIDIA
Por Rafael Fracacio
Colaborador: Fabiano Mori

Injustiças acontecem todos os dias. E todos nós sabemos disso. A falta de caráter e profissionalismo de muitas pessoas pode acabar prejudicando outras. E nós sabemos disso. E, infelizmente, muitas vezes nos calamos diante de situações que vão contra nossa ideologia, por medo, por receio, ou simplesmente, por educação. Só que, às vezes, se rebelar contra os opressores pode ser a única saída para problemas de sério calibre. Por este motivo, estarei escrevendo este texto em tom pessoal. Foi a melhor forma que encontrei para expressar minha indignação com uma mídia incapaz de respeitar os artistas que a ajudaram (e ainda ajudam) a se fortalecer.

Vou expor os fatos passo-a-passo, para que fique bem clara minha posição em relação ao ocorrido. Tudo começou quando peguei, para ler, o jornal O Globo do dia 27 de dezembro de 2002. Ao chegar no Segundo Caderno (caderno responsável pela parte cultural), a matéria de capa me chamou a atenção: “Louco com causa – O iconoclasta Lobão desafiou a indústria, que cresceu apesar da crise”.

Sei que é antiético citar nomes. Mas a indignação e a justiça estão acima da etiqueta... Além disso, a antiética foi cometida, primeiramente, pelos próprios a serem citados: Antonio Carlos Miguel, Bernardo Araujo, e João Pimentel. Antiética profissional.

Vou comentar primeiro uma questão, que me posiciona dentro da defesa que irei pregar mais adiante: há algum tempo costumo a freqüentar a cena alternativa, acompanho programas de rádio como “A Vez do Brasil” e “MPBeleza”, que dão espaço a novos artistas, e sei das dificuldades que jovens músicos encontram para conseguir se projetar. O espaço é realmente muito pequeno, visto que as Majors (grandes gravadoras) preferem valorizar artistas de pouca qualidade musical, mas com grande potencial comercial. Muita gente boa acaba ficando para trás, permanecendo no underground, ou tendo que lançar suas obras através de selos independentes, que não contam com o apoio da mídia divulgadora. Enquanto as rádios, principal veículo transmissor de peças musicais, se submeterem ao conhecido “jabá” (propina que as gravadoras pagam às rádios para tocar suas músicas), esse espaço continuará reduzido. Ligar uma rádio e escutar uma mesma canção (The Calling - Wherever You Will Go, ou LS Jack - Carla) mais de dez vezes num mesmo dia é apelação comercial demais.

E um dos temas abordados na matéria sobre o Lobão, é justamente esse abuso das rádios, no que diz respeito ao jabá. Ele sempre foi um artista consciente, um batalhador, lutando por uma causa, uma espécie de “Courtney Love” do Brasil (para maiores referências, confira o especial “You Know You're Right”). Suas idéias de numerar os discos e reduzir os preços são formas de diminuir a pirataria. Só que as Majors preferem vender menos a ter que baixar os preços de seus produtos, ou pagar os devidos méritos a seus artistas.

Vou reproduzir aqui, um trecho da página 2 do Segundo Caderno, onde a posição de Lobão fica bem clara:

“Como dar nome aos bois não é problema para Lobão, ele acusa Gilberto Gil e Caetano Veloso, a quem chama de “cadáveres insepultos”, de serem coniventes com os padrões caducos da indústria. - Caetano diz que fulano é um gênio e todo mundo bate palma. Vivemos uma ditadura branca em que as pessoas ficam coibidas de criticar pela ameaça de não existir na mídia — ataca. — Caetano canta “Cucurrucucu paloma” tremelicando a bochecha e isso, que é de péssimo gosto, vira o chique, o tribalista. A minha fúria e a minha razão em cima desses caras são porque sei que tenho o que falar. Minha missão é constranger esse mercadão.”

Teoricamente, eu não posso reproduzir nada da matéria aqui. Quando enviei um e-mail para a Agência O Globo, pedindo autorização para criticar a matéria, citando partes da mesma, recebi um “não” da forma mais delicada possível:

“Agradecemos o seu contato. A Agência O Globo comercializa noticiário, fotos, cadernos e colunas produzidos pelos jornais O Globo e Extra para outros estados. (...) O Arquivo Premium é a ferramenta ideal para ajudar nas pesquisas da sua empresa - este é um banco de dados com a credibilidade da Infoglobo. Clientes corporativos: Caso você tenha interesse em adquirir um grande volume de textos e ser um cliente corporativo, entre em contato com nosso departamento comercial, através do telefone (21) 2534-5656 ou pelo e-mail agenciaoglobo@oglobo.com.br. Veja as vantagens de ser um cliente corporativo: 1) Você compra um número maior de textos e paga menos por eles, porque os descontos são progressivos. 2) Ao comprar um pacote de textos, você passa a ter créditos acumulados. À medida que for utilizando os textos, o sistema vai informá-lo sobre os créditos remanescentes. 3) Não há limite de prazo para a utilização dos seus créditos. Tabela de créditos: 100 textos - R$ 180 (desconto de 10%); 200 textos - R$ 340 (desconto de 15%); 500 textos - R$ 800 (desconto de 20%); 1.000 textos - R$ 1.400 (desconto de 30%); 5.000 textos - R$ 6.000 (desconto de 40%); Como pesquisar e comprar: Você poderá pesquisar e visualizar as primeiras linhas de cada texto de graça. Depois de achar as reportagens que deseja, deve selecioná-las e efetuar o pagamento para ter acesso ao texto completo: você vai receber o material adquirido por e-mail e também poderá salvá-lo em seu computador. O site do Arquivo Premium ensina, passo a passo, como pesquisar e comprar o material, mas você ainda conta com uma equipe de suporte para tirar suas dúvidas.”

Bem, como eu acredito na LIBERDADE DE IMPRENSA, e como NÃO ESTOU FAZENDO USO COMERCIAL DO TEXTO supracitado, decidi reproduzi-lo, para mostrar que a mesma mídia que comete antiética e corrompe a dignidade de diversos artistas pode ser usada para se autodestruir. Daí, provavelmente, a falta de cooperação quando enviei um e-mail requerendo a autorização para publicar parte da matéria, devidamente creditada (algo que não deixei de fazer em momento algum, inclusive citando o nome dos autores da matéria).

Vamos parar com a enrolação e ir direto ao assunto. Falei muito, citei alguns fatos, etc. Mas ainda não expliquei o motivo de minha raiva, motivo este que me levou a escrever este texto. Continuei lendo a matéria até o fim, por concordar com a posição do Lobão em relação à mídia que auxilia a corrupção que tanto prejudica os verdadeiros artistas. E como sempre freqüento a cena underground, certa vez, fui a um show que me chamou muito a atenção. Estávamos, Rafael Dutra (também membro da equipe do Let's Rock!) e eu, no Armazém Nº5, no cais do Porto no Rio de Janeiro, há alguns meses, para assistir a um show simplesmente épico: Mogwai - uma banda escocesa de Post-Rock. Ficamos maravilhados com o show, assim como os shows de outras bandas que tocaram antes (darei destaque a uma banda que me chamou a atenção: Casino). Tudo underground, artistas que, descartados pela mídia, realizam seus trabalhos através de selos independentes e shows no circuito alternativo. Até aí, tudo bem. Vejo-me, então, com uma outra parte da mesma matéria, falando sobre os dez melhores shows de 2002. Entre eles, o show do Mogwai. Só que alguns detalhes realmente me incomodaram. Irei reproduzir aqui uma imagem escaneada do artigo sobre o qual estou falando:

Agora, vejam alguns erros:

01. Todas as vezes que o nome da banda Mogwai aparece escrito, o “i” aparece substituído por um “Y”. Ou seja, o autor desconhece a banda;

02. O autor diz que é um “grupo americano”. Como eu já citei antes, é uma banda escocesa. Aliás, o próprio Let's Rock! Já fez citações à banda, na matéria “Reindeer Section”, mais precisamente na coluna “Britpop”. Americanos fazendo Britpop? Estranho isso, não? Acho que isso demonstra que o autor desconhece a banda;

03. Ele diz que a banda faz “pop-rock”. Acho que ele não sabe diferenciar muito bem pop-rock de post-rock. O que significa que o autor, definitvamentente, desconhece a banda;

Nossa, me estressei por causa disso?! Parece besteira, não é? Mas a situação é muito grave. Muito mais do que aparenta. É uma clara demonstração que o(s) autor(es) do artigo desconhece(m) a banda, incluindo a origem do nome, que foi inspirado nas criaturas do filme Gremlins. Além disso, para completar, ainda rotula bandas como Los Hermanos, Thee Butcher's Orchestra e Mogwai como sendo pop-rock. Los Hermanos é uma banda que odeia rótulos, e podem ser considerado tudo, menos popular. O fato de serem famosos não significa que são populares. Pelo que eu saiba, "popular" é uma designação dada ao que é feito pelo povo e/ou para o povo. Eles não produzem um som popular, motivo esse de as vendas de seu "Bloco do Eu Sozinho" ter sido menor do que o esperado. São excelentes músicos, famosos pelo hit popular “Anna Julia” (o fato de possuírem uma canção pop-rock em seu repertório não influencia no estilo da banda), mas não são populares. A banda Thee Butcher's Orchestra é um conjunto de rock alternativo que funde rock sessentista, com rock de garagem e psychobilly. É puro rock 'n' roll, da melhor qualidade, e não é pop-rock. Já os escoceses do Mogwai produzem uma evolução do rock, conhecida como Post-Rock, gênero cujo surgimento seu deu em 1994 (tempo suficiente para que o autor, pelo menos, soubesse de sua existência, se fosse no mínimo interessado em aprimorar seus conhecimentos musicais, já que escreve sobre o assunto) foi o lançamento do primeiro disco da banda Tortoise. Post-Rock não possui nada de popular. Esse conjunto de fatores revela, com muita clareza, a incompetência do autor que, além de generalizar gêneros e estilos, rotulando-os de pop-rock, por simplesmente ser este um termo popular. Como alguém que escreve sobre música pode demonstrar tamanha falta de conhecimento sobre o assunto? Acredito que antes de escrever sobre um determinado tema, o autor tem o dever de pesquisar sobre o mesmo. Esse tipo de autor sacrifica o conteúdo de seus textos, escrevendo superficialmente sobre certos temas, tratando artistas de qualidade de forma ridícula e desprezível, com a pretensão de serem grandes jornalistas. O jornalista tem o dever de informar, e não alterar os fatos para escrever um texto bonitinho, ou simplesmente fechar a matéria a tempo de ser publicada. É esse tipo de atitude, ou melhor, falta de atitude, é um dos fatores que Lobão critica, e com razão. É por causa de gente desse tipo que muitos bons artistas permanecem no underground, artistas que muito têm a acrescentar à evolução da música e à cultura popular. É por causa disso que muito lixo é comercializado no mainstream.

Vejam a ironia: temos uma matéria que coloca a posição do Lobão: “Vivemos uma ditadura branca em que as pessoas ficam coibidas de criticar pela ameaça de não existir na mídia”. De um lado vemos uma mídia, seja ela rádio, TV, ou jornal (no caso o jornal “O Globo”) que aceita o lado das gravadoras, e do outro temos um artista que luta contra essa mídia que deturpa a verdadeira qualidade e ascensão de bons músicos. E na mesma matéria em que a posição dele é explicitada, falsos jornalistas, sem ética alguma, e sem respeito pelos artistas, membros da comunidade que apóia as Majors e prejudica os músicos, demonstram que sabem falar bem e convencer os leitores que entendem de um assunto sobre o qual estão escrevendo. Mas, na verdade, são completos ignorantes. Por isso, resta a nós, público, consumidores, leitores, fãs da boa música, refletir sobre o que está acontecendo realmente. Será que devemos continuar apoiando a mídia, fortalecendo as Majors, gastando tubos de dinheiro comprando discos acima de um valor condizente com seu custo de produção? Ou seria muito melhor começar a combater essa ditadura, deixar de consumir o lixo intragável que nos é empurrado, e buscar novos artistas, novos gêneros, e apoiar quem realmente merece? Cabe a nós decidir qual caminho tomar. Cabe a nós escolher quem apoiar. E, sinceramente, eu não tenho vontade de permanecer do lado daqueles que tem a coragem (ou melhor, a covardia) de escrever algo sobre um artista, sujando sua imagem e colocando-o contra seus próprios princípios e objetivos. E ainda tentam me proibir de reproduzir a agressividade que por eles foi dita. É isso o que eu tenho para dizer...