COMPLEXIDADE MUSICAL
Por Ewerton Laraia

O que é o mais importante em uma música: a sua qualidade enquanto música ou a dificuldade em ser tocada? Uma canção musicalmente muito complexa é sinônimo de qualidade? Músicas fáceis de serem tocadas são músicas de qualidade inferior?

A pergunta acima declinada é uma incógnita hoje em dia, pois o universo metálico está repleto de bandas que têm em mente o fato de que músicas complexas são as melhores e, via de conseqüência, as mais bem quistas pelos bangers. Outros divergem veementemente. Diante disso, o que seria o tal conceito de músicas complexas? Eis aqui o outro X da questão...

No entender de quem vos escreve há dois tipos de complexidade musical. Um deles é a música que, não obstante ser composta de forma simples, isto é, alicerçadas, por exemplo, só com riffs, arranjos mais básicos, mas que mesmo assim, são músicas intrincadas, profundas e que você normalmente só conseguirá compreendê-la após muitas audições. Exemplos? Alguém se lembra quando a banda Sepultura lançou o álbum ‘Roots’? Pois então, a música homônima deste CD é o tipo de música básica, com arranjos sem firulas, mas é uma composição que demanda certo tempo para entendê-la a contento. Na época em que foi lançado este trabalho deste que é um dos maiores nomes do Thrash, muita gente torceu o nariz, mas hoje a música ‘Roots’ é clássico mundialmente conhecido e reverenciado.

O outro tipo de complexidade musical é aquele típico de quem acaba de sair de uma faculdade de música (mesmo não tendo feito), ou seja, o cara tenta colocar tudo que aprendeu durante anos de estudo em uma só música – são velozes solos com milhares de notas, arranjos orquestrais eruditos, duelo de guitarras, teclados com seus infinitos efeitos e timbres. Enfim, chega a parecer que todos, dentro da música, têm de fazer seu solo particular.

Falando deste último tipo de complexidade musical, o qual é objeto desta matéria, você deve imaginar que sou antivirtuosismo, não é? Ledo engano, entendo que tudo tem seu espaço, mas na medida certa. Há várias bandas que são adeptas do virtuosismo, porém, conseguem transmitir coesão e lógica no que fazem. Quer música mais complexa que “Carolina IV” do Angra (do álbum Holy Land), com seus mais de dez minutos? Então, é extremamente complexa, mas que faz a pessoa ouvir algo conjunto e com ‘feeling’.

Pode parecer esdrúxulo, mas uma banda de Metal tem que parecer uma escola de samba, isto é, tem que haver conjunto e harmonia, pois ficar enaltecendo dentro da música esse ou aquele instrumentista e não o todo é maior falha das bandas adeptas do virtuosismo.

Não há coisa mais desagradável do que ouvir uma música de dez minutos em que o vocalista canta por dois e o restante são os demais músicos fazendo seus ‘workshops’. Tudo finda por soar desconexo, sem ‘feeling’ e sem qualquer lógica.

Caros amigos, música difícil de ser tocada nem sempre é sinônimo de qualidade. Se assim fosse, bandas como Black Sabbath, AC/DC (que na maioria das vezes fazem músicas simples e desprovidas de qualquer complexidade) jamais seriam os eternos ícones que são, pois qualquer um que começa a tocar um instrumento logo já tira ‘Paranoid’, ou vai falar que isso não aconteceu como você?

Pois então, uma música pode muito bem ser de altíssima qualidade, mesmo não sendo difícil de ser tocada. Tem banda que exagera muito no “segundo tipo de complexidade musical” e enche a músicas de teclados, de coros, e firulas de todo gênero. Experimente ouvir uma música nestes moldes em um volume bem alto. Você vai perceber que tudo vira uma verdadeira miscelânea. Agora, faça o mesmo ouvindo uma música calcada em bons riffs de guitarra, sem muita frescura nos arranjos... Vou dar como exemplo uma que estou ouvindo agora. Trata-se de “Silicon Messiah” do Blaze (banda de Blaze Bailey, ex-Iron Maiden). Você vai perceber a gritante diferença! E é por isso que ao vivo lixos como Blind Guardian e Rhapsody fazem feio, pois tentam fazer muito em estúdio, todavia, acabam chegando a lugar nenhum com sua complexidade musical, que resta por quase 100% das vezes inócua.

Não há como falar de do assunto ora abordado sem fazer alguma referência sobre as bandas de Prog Metal. Muitas delas conseguem fazer músicas muito boas, mesmo aderindo ao virtuosismo extremo. Exemplos: “Metropolis” do Dream Theater e “The Journey” do Khallice. Além de músicas de outras bandas como Evergrey, Threshold, Symphony X, Magnitude 9, etc, mas mesmo estas muitas vezes mandam o ‘feeling’ que uma boa música deve ter para o espaço. Que graça tem, a título de exemplificação, ouvir as músicas do CD novo do Dream Theater, “Train of Thought? Parece que a mensagem a ser passada nas músicas desse álbum é: “olha como nós tocamos coisas que quase ninguém consegue tocar”, “Ouça meu solo à velocidade da luz e tente fazer igual se for capaz”! Chega a ser cômico, mas ultimamente é o que as bandas de Prog tentam passar aos seus ouvintes. Infelizmente!!!

Minha pretensão aqui não é convencer ninguém com estas breves linhas, mas tão-somente têm estas a finalidade de alertar que há muita coisa boa nesse infindável universo do heavy metal, mas há também muito joio disfarçado de trigo.

Enfim, complexas ou não, a música tem que ser é boa como um todo, sempre com muito ‘feeling’. Boa música advém de inspiração e não de erudição, técnica ou congênere. Portanto, cuidado com as enganações que existem por aí. E lembre-se do principal: nem sempre ótimos músicos fazem músicas de qualidade...