VÍMANA - ZEBRA/MASQUERADE (Som Livre, 1977)

É mole? Nem os Mutantes, a maior banda brasileira de todos os tempos conseguiu tal façanha: colocar um single para ser resenhado e ainda falar bastante sobre a banda. Neste caso, a banda em questão tornou-se lenda por reunir três nomes que se tornariam figuras de proa no rock brasileiro oitentista (Lobão na bateria, Lulu Santos na guitarra e Ritchie nos vocais, e ainda Fernando Gama no baixo e Luiz Paulo Simas no teclado) e não lançou nada mesmo além de um single que inclusive era para ser um LP inteiro, mas foi mal-lançado e mal-distribuído. O LP ainda existe, repousa em algum master sumido, mas nunca viu a luz do dia. O compacto virou lenda, e a banda também.

Na década de 70, pipocavam em todos os cantos do Rio e de São Paulo, grupos que tinham como projeto de vida o rock progressivo, elaborado e influenciado por bandas como Yes, Emerson, Lake & Palmer, Genesis, etc. Outras se dedicavam mais à psicodelia, ao rock influenciado pelo uso de substâncias químicas. E a maioria delas se dedicava às duas coisas. Claramente, isso tudo havia sido influenciado pelos Mutantes, banda que, com ou sem Rita Lee, cruzou o caminho e foi responsável pela iniciação musical e até pela formação de várias dessas bandas, especialmente quando saíram praticamente todos os integrantes originais do grupo e o mutante Sérgio Dias mudou-se para o Rio, com a intenção de elaborar e redefinir o som dos Mutantes.

Entre as bandas que davam prosseguimento a esses movimentos, no Rio de Janeiro dos anos setenta, estavam o Veludo (depois Veludo Elétrico) e o Módulo 1000. Pelo Veludo (inédito em disco, ainda) passaram músicos como Paul de Castro, Lulu Santos e Fernando Gama, a banda hoje em dia está reunida dando shows, por sinal. Do Módulo, que gravou um único disco, o psicótico “Não fale com paredes”, vieram Candinho e o nosso amigo Luiz Paulo Simas. Fernando, Lulu, Luiz Paulo e Candinho logo se juntaram e trouxeram consigo as respectivas bagagens, das duas bandas, aparentemente, o Módulo 1000 era a mais progressiva. A influência dos Mutantes era forte nesse movimento rockeiro, os Mutantes eram a banda que tinha o melhor equipamento e quase todo mundo queria ser como eles. Lulu Santos, por exemplo, vivia atrás de Sérgio Dias e vez por outra, até baixava na casa da família dele, em Sampa.

O vocalista-flautista Richard Court tinha conhecido Rita Lee, Liminha e Lucia Turnbull quando os três foram até Londres dar uns bordejos, por volta de 1972, Lucia era amiga de um amigo do cantor, daí o encontro. Na época, Ritchie não passava de um estudante de literatura doidão que tinha montado uma banda para protestar contra a construção de um viaduto em Piccadilly Circus. A banda se chamava Everyone Involved porque tinha de tudo, artistas de teatro, artistas plásticos, estudantes, gays, lésbicas e simpatizantes. O Everyone havia tido a fenomenal idéia de arrecadar dinheiro na rua para gravar um LP e depois dá-lo para as pessoas, também em praça pública. O disco (raro hoje em dia, segundo o próprio Ritchie) acabou tendo a participação de Lucinha e Liminha, que fizeram vocais.

A galera se deu tão bem que Liminha acabou convidando Ritchie para vir ao Brasil. O cara acabou arriscando vir pra cá e já foi logo recebido com o fim da formação original dos Mutantes e com a entrada no mercado do primeiro rockeiro brazuca de sucesso, Raul Seixas. "O que eu percebi é que as pessoas estavam ávidas por um rock´n roll e que aqui não havia nada. Eu falei: 'Eu acho que eu posso deixar alguma marquinha aqui!' Despretensiosamente, mais porque eu vinha com uma bagagem de Beatles e tudo o mais. Eu cheguei aqui e todo mundo dizia: 'Um verdadeiro músico de Londres, um inglês músico!'. Eu falei: 'Puxa, que bom ser querido assim! Thank you! Vamos lá!", disse ele numa entrevista ao tablóide International Magazine.

Ritchie se fixou em São Paulo, e foi de tropeço em tropeço. Montou o Scaladácida e esbarrou na falta de um visto de permanência, o que acabou inviabilizando um contrato da banda com a Continental. Já legalizado, ele veio para o Rio e começou a dar aulas de inglês e acabou entrando na banda A Barca do Sol, apenas para tocar flauta. A Barca, que gravou dois discos pela Continental (relançados num único CD em 2000) era uma boa banda, mas em termos de vocais, não era lá essas maravilhas, o que deixava Ritchie, que já era uma bom cantor, bem puto da vida. Sem perspectivas de conseguir passar a cantar na banda, por causa do forte sotaque, ele acabou saindo (ou sendo tirado, ele não lembra).

O Vímana já existia no pára-e-anda na época, com Lulu na guitarra e vocais, Luiz Paulo nos teclados, Candinho na batera e Fernando Gama no baixo. A banda, que já existia desde 1974, tinha tirado seu nome da obra de Carl Jung e, pelo que consta, começara fazendo um som mais hard, para depois abraçar o prog de vez. Pelo que consta também, o grupo tinha inúmeros problemas em casar seu som (sofisticado tecnologicamente, para a época) com a indigência dos equipamentos de palco que eram usados. Luiz Paulo, por exemplo, era dono de uma das maiores novidades tecnológicas no Brasil de 1974: um sintetizador. Um ano depois, o grupo chegou a participar de uma das primeiras tentativas de se fazer um festival de rock no Brasil, o primitivo Hollywood Rock. Apesar de ter o mesmo nome do festival que dividiu Rio e São Paulo entre as décadas de 80 e 90, o Hollywood trazia só artistas nacionais, no caso, o Vímana, Rita Lee & Tutti Frutti, Erasmo Carlos, O Peso, e ninguém menos que Celly Campelo, e, segundo o que me contaram, tinha um sonzinho de merda. Chegaram a sair um disco de vinil com os melhores momentos do festival, hoje raríssimo (bom, já quiseram me cobrar 300 pratas por ele) e, anos depois, um homevideo, com o título de Ritmo alucinante.

Mais ou menos nessa época, Candinho resolveu seguir o guru Mahara-Ji e largou a banda, deixando o cargo de baterista vago. Lulu, já meio sem vontade de cantar, resolveu procurar Ritchie, que já conhecia dos bastidores de alguns shows, para lhe oferecer a vaga de vocalista. O convite que Lulu, Luiz Paulo e Gama fizeram a Ritchie hoje é histórico, os quatro se encontraram na Praça General Osório (em Ipanema, RJ) e Lulu teria dito: "Ainda bem que você saiu daquela merda! Quer tocar com a gente?".

Em 1975, ainda parado para obras e sem baterista fixo, o Vímana conseguiu aquilo que parecia a sorte grande: graças a Guto Graça Mello e Nelson Motta (que já havia enfiado o grupo no tal Hollywood Rock), a banda conseguiu virar atração da peça A feiticeira, de Marília Pêra. A entrada na peça, que foi um fracasso total, foi inicialmente boa para ambas as partes: Marília ganhava uma banda fixa e o grupo tinha aonde ensaiar à vontade.

Só que o buraco na cozinha permanecia. O grupo chegou a fazer uma tentativa com o baterista Azael Rodrigues, que tinha tocado no Scaladácida com Ritchie, mas não rolou. Depois disso seguiram-se outros bateristas, até que, durante um ensaio, Lobão seria praticamente enfiado na banda, puxado por um amigo de colégio. Na época, o então desconhecido batera nem tinha 18 anos, estava mais a fim de tocar violão clássico e achava rock coisa de colonizado. Subiu no palco meio puto e tocou algo que Ritchie definiu como "um samba no ritmo da Mangueira". Acabou agradando ao grupo e a Nelson, que, para que a peça pudesse viajar, não hesitou em responsabilizar-se pelo então menor de idade Lobão.

O grupo permaneceu junto, dando shows em sua maioria no Rio (de acordo com o livro BRock, de Arthur Dapieve, o equipamento do grupo era tão pesado que o jeito era ficar por lá mesmo). O Vímana se apresentou bastante no Museu de Arte Moderna, no Teatro Teresa Raquel e em outros lugares, sempre enfrentando os eternos problemas com o som, comuns na época, e a própria ditadura, que reprimia e cortava tudo. Na época, o som do Vímana já estava bem progressivo, exigindo 100% da técnica do grupo (que não era pouca) a arrastando fãs para seus shows.

A banda foi colocada na Som Livre graças a Guto Graça Mello, produtor da gravadora (responsável anos depois pela contratação do Barão Vermelho). Ritchie, numa entrevista ao International Magazine em 1997, deu sua versão do caso: "O disco saiu por uma concessão da Som Livre, que gravou um disco nosso para testar seu novo estúdio, o Level. A gente tava crente que estava gravando um disco, mas na verdade a gente estava testando equipamento para eles. Então eles lançaram um compacto, com uma música que saiu até numa coletânea na Inglaterra. As gravadoras simplesmente não queriam lançar comercialmente. O disco foi prensado porque a gente insistiu muito, mas a gente levou 8 meses para receber uma cópia". O site oficial de Lobão, na biografia do cantor, coloca com todas as letras que "era a instalação do primeiro estúdio de 24 canais do Brasil, e o Vímana serviu de cobaia". Lulu Santos, por sua vez, declarou numa entrevista antiga que a desculpa apresentada pela gravadora para não lançar o LP inteiro foi a de que o Brasil não estaria preparado para o rock, como a Som Livre já havia lançado Rita Lee & Tutti Frutti, Casa Das Máquinas, entre outros artistas, fica complicado imaginar isso.

Bom, o compacto do Vímana tinha apenas duas faixas. "Zebra", o lado A, é um funk-rock com toques progressivos, animado, de teor quase pop, bem diferente de Yes, Emerson, Lake & Palmer e outras bandas em voga na época. Os vocais são feitos por Ritchie, mas dá pra identificar uma voz parecida com a de Lulu nos backing vocals. A banda tinha uma técnica absurda e um balanço difícil de encontrar no rock progressivo de então, no Brasil e no mundo. O lado B, "Masquerade", já é 100% prog, com letra em inglês, solos de flauta, melodia "viajeira" e um solo de piano super-intrincado, quase erudito - uma das primeiras referências que vêm à mente é o Focus, mas o Vímana parecia ter bastante personalidade para não virar clone. Se o Brasil estava preparado para o rock não se sabe, mas uma coisa é certa, o som do Vímana era bem mais elaborado e "difícil" que a média das bandas progressivas brazucas da época, quase a nível de uma banda estrangeira. Dá até vontade de escutar o tal LP inteiro.

Depois das negociações fracassadas do disco, pintou outra sorte grande (pelo menos aparentemente) para o grupo. O então tecladista do Yes, Patrick Moraz havia dado um passeio rápido pelo Brasil (onde chegou a gravar um clipe para o Fantástico) e ficou conhecendo o Vímana. Depois, Ritchie e Luiz foram atrás dele com o tape do disco e, quando o tecladista saiu do Yes, foi a vez dele ir atrás do Vímana, com a intenção de transformá-los em sua banda de apoio. A princípio, o lance parecia perfeito, o grupo começou a receber de Patrick um salário só para ensaiar e haviam promessas do Vímana seguir com Patrick lá pra fora. Só que o choque de egos do tecladista com Lulu, que era meio que o líder da banda, foi inevitável. A banda começou a se fragmentar e a ter problemas com Patrick, especialmente Ritchie, que sentia dificuldades em ensaiar todo o repertório solo de Patrick (dificílimo, segundo ele) de uma hora para outra, e o próprio Lulu, que acabou sendo expulso da banda (Arthur Dapieve conta no BRock que Patrick mandou Lulu embora dizendo que o guitarrista não sabia tocar direito). Em uma entrevista à revista Bizz, em 1995, Lulu, ao ser perguntado sobre Patrick, afirmou que o tecladista era "um sujeito horroroso", entregando ainda que, nas internas do Vímana, o cara era chamado (pelas costas, lógico) de "Marick Patráz".

As dificuldades técnicas com Patrick, que só faltava tirar o sangue da banda, foram crescendo... Ao que parece, a idéia de Patrick era criar um projeto para competir com o Yes, com o qual ele devia estar brigado na época, mas tudo ainda estava muito confuso para os músicos, que não sabiam ao certo o que o tecladista realmente queria. Mesmo após a vinda ao Brasil de executivos do selo Charisma, com o qual Moraz tinha contrato, nada parecia indicar que o grupo seguiria com o músico para fora do Brasil (Ritchie hoje acredita que tudo era apenas uma tentativa de Patrick ficar no Brasil dando um tempo; Luiz também tem dúvidas quanto ao que aconteceria). A associação Patrick Moraz/Vímana terminou quando Lobão cometeu a vingança que a banda precisava, tomou a mulher de Moraz, Liane Monteiro, e se instalou na casa dele com ela.

Quase ao mesmo tempo em que o Vímana fechava o caixão, Fernando Gama entraria para a última formação dos Mutantes, em 1977, essa formação não chegaria a gravar nenhum disco. Hoje o ex-baixista do Vímana está no Boca Livre. Candinho hoje vive em Miami. Luiz Simas tentou um trabalho solo, criou o plim-plim da Globo, compôs em parceria com Ritchie nos anos 80 ("A sombra da partida") e hoje mora nos EUA, Ritchie, depois do sucesso de "Menina veneno", passou a trabalhar com sonorização de sites e programas de computador. Se você não sabe por onde andam Lobão e Lulu Santos é porque não esteve no Planeta Terra nos últimos anos. Quando ao tape original do disco do Vímana, ninguém sabe, ninguém viu. Só restou o compacto, cujas duas faixas podem ser ouvidas no CD da série e-collection dedicado ao Lulu Santos (WEA), em fonogramas tirados direto do vinil.

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