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SOCIEDADE
DA GRÃ-ORDEM KAVERNISTA - Sessão
das 10
No
começo da década de 1970,
Raul Seixas era produtor da gravadora
CBS (atual Sony). Apesar da moral adquirida
ao compor e produzir discos para cantores
populares como Jerry Adriani, Renato e
Seus Blues Caps, Leno e Lillian, entre
outros, o baiano não desistiu da
idéia de ser cantor – mesmo
com o fracasso de seu primeiro álbum
(Raulzito e os Panteras, 1968) Enquanto
trabalhava, Raul aproveitou a distração
dos executivos da empresa para gravar
e lançar “Sociedade da Grã-Ordem
Kavernista Apresenta Sessão das
Dez”. Contando com a participação
de Miriam Batuca, Sérgio Sampaio
e Edy Star, a obra é tão
anárquica e surpreendente quanto
desconhecida. Satiriza o sonho hippie,
a classe média e a musica popular
brasileira, sem perder o bom humor que
marcaria para sempre a trajetória
do cantor.
Com
vinhetas antecedendo as faixas –
ao melhor estilo Mother’s of Invention,
banda de Frank Zappa – o álbum
começa com uma vinheta de circo
para apresentar o disco. Em seguida surge
‘Eta Vida’, música
estilo jovem guarda cantada por Raul e
Sérgio. Na letra, a primeira cutucada
na classe média com sua vida feita
de “felicidades” ilusórias
(Moro aqui nesta cidade, que é
de São Sebastião/ Tem Maracanã
domingo, pagamento à prestação/
Sol e mar em Ipanema, sei que você
vai gostar/ Mas não era mesmo o
queria, o que eu queria mesmo era me mandar...
Mas eta vida danada, eu não entendo
mais nada).
A
próxima música é
‘Sessão das Dez’ (cantada
por Edy Star), a mesma que entrou em “Gita”
(1974), mas com outro arranjo. Antes,
porém, na vinheta que antecede
a faixa, mais um sarro na classe média
e um dos seus sonhos de consumo (Eu comprei
uma televisão à prestação...
Eu comprei uma televisão, que distração).
A música é anunciada como
uma homenagem aos boêmios da velha-guarda
e brinca com o saudosismo dessa ala carioca.
‘Eu
Vou Botar Pra Ferver’ é uma
“marchinha carnavalesca” interpreta
pela dupla Raul/Sérgio e que remete
à festa brasileira. É claro
que satirizando (Quero ver gente cantando
no salão entediado/ Muita gente
se aplumando no salão entediado/
Eu vou botar pra ferver no carnaval que
passou).
Em
seguida aparecem ‘Eu acho graça’,
marcada pela forte influencia da música
africana, onde Sérgio Sampaio expressa
sua inadaptação ao meio
(Passam pela praça, eu acho graça/
Falam mal de mim, eu acho graça);
e ‘Chorinho Inconseqüente’,
samba cantado por Mirian Batucada. As
duas músicas têm em comum
o fato de tirar uma onda do sonho hippie
nas vinhetas (Hei, é o Jorginho
Maneiro? É verdade que agora você
é hippie?; Há um hippie
bem no meu portão... há
um hippie bem no meu portão que
distração).
Na
seqüência vêm ‘Quero
ir’ e ‘Soul Tabarôa’,
um baião e um forró, respectivamente.
As músicas ressaltam a raiz nordestina
de Raul que pode ser percebida, por exemplo,
no clássico ‘Let me Sing’.
Em ‘Quero ir’ fica clara a
ansiedade da dupla (Quero ir, quero pouca
espera/ Quero ir pela primavera/ Quero,
quero, quero) e a crítica ao Rio,
resgatando um pouco da primeira faixa
(O sol daqui é pouco, quase nada,
a rua não tem mais fim/ Volto para
Bahia ou pra Cachoeira do Itapemirim).
A
próxima é ‘Todo Mundo
Está Feliz’. Neste pop-rock,
Sérgio Sampaio critica a alienação
da classe média (Hoje podia ser
domingo, 2º de janeiro pra mim vai
dar no mesmo lugar/ Vai dar pra mim alegria,
eu não quero mesmo nada/ Eu não
tenho nada a ver com isso/ Olho por dentro
das vitrines do alto do edifício
e vejo um dia novo no céu/ Hoje
é um dia como outro, esqueci o
calendário no bolso da camisa).
‘Aos
trancos e Barrancos’ é outro
samba, que brinca mais uma vez os sonhos
de consumo das classes média e
baixa. Logo na vinheta, a sátira
se dirige a ambição dos
que desejam mudar de vida (Eu sou o cara
que subiu na vida/ Morava no morro, agora
moro no Leblon) e na música, o
alvo é mais uma vez a classe média
com sua preguiça de raciocinar
(Rio de Janeiro, você não
me dá tempo de pensar com tantas
cores, sob este sol/ Pra que pensar, se
tenho o que eu quero, tenho a nega, meu
bolero, a TV e o futebol), tudo exposto
na voz de Raulzito.
A
faixa seguinte é a estranha ‘Não
quero dizer nada’. A música
cantada por Sérgio Sampaio cria
um clima de suspense para depois se dissolver
em variações de sentido
e ritmo. O título resume bem espírito
da faixa, que em alguns momentos chega
a se parecer com o som feito pelos Mutantes.
A
penúltima música é
‘Dr. Paxeco’. Aqui Raul Seixas
– que a compôs e interpreta
– dá amostras de ter bebido
na fonte do psicodelismo inglês.
A letra é uma crítica aos
valores morais do doutor Paxeco, símbolo
da classe média respeitada, que
tem bons empregos e salários (Perdido,
dividido, dirigido, carcomido, iludido,
tem nos olhos o cifrão).
‘Finale’
encerra o espetáculo, vaiado e
atira ao vaso sanitário. É
como se Raul Seixas já previsse
a forma como o álbum seria recebido:
incompreendido pela crítica e banido
pela gravadora, que o tirou de circulação
logo após o lançamento.
Ao
lado de bandas como Mutantes e Secos &
Molhados, o disco representa o que de
mais criativo existia na música
nacional nos fim dos anos 60 e começo
dos 70. Ele marca a chegada de Raul Seixas,
que adicionou a sua veia de compositor
popular, um espírito contestador
que marcaria para sempre sua carreira.
A variação de sons e ritmos
até hoje assusta, o álbum
abrange praticamente tudo que havia na
música brasileira como som nordestino,
samba e derivados, rock, musica pop...
Trata-se de uma obra concebida para questionar
nossa música e sociedade, feito
para destruir tudo que existia para que
depois outros viessem construindo. Pelo
que se propõe, é um disco
quase perfeito, faltou mais a veia rock’n’
roll que marcaria outros trabalhos de
Raulzito.
1971
– GRAVADORA CBS
Cantores: Raul Seixas, Sérgio Sampaio,
Miriam Batucada e Edy Star.
Não constam nos encartes dos LPs
originais ou nos lançamentos em
CD , créditos de ficha técnica
e músicos participantes. |