RAUL
SEIXAS - Krig-Ha, Bandolo!
Por
Carlos Roberto Merigo Filho
No
ano de 1966, aquele que seria chamado
mais tarde de maluco beleza, Raul Seixas,
já era conhecido na Bahia com
a sua banda Raulzito e Os Panteras.
Fizeram diversas apresentações,
incluindo uma no Festival da Juventude
no cine Roma, onde foram obrigados a
voltar ao palco mais cinco vezes, de
tão aplaudidos. Nessa época
ele conhece a americana Edith Wisner,
filha de um pastor, pára de tocar
e volta aos estudos. Raul passa entre
os primeiros colocados da Faculdade
de Direito e declara: “Viu como
é fácil ser burro?”
Casa-se
com Edith, e depois de muita insistência
de Jerry Adriani, volta a tocar com
os Panteras. Mudam-se para o Rio de
Janeiro, onde em 1968 gravam o primeiro
disco, agora chamado de Raulzito e Seus
Panteras. O álbum foi um fracasso
total, a banda se dissolve e Raul volta
pra Salvador.
Em
1970, Jerry Adriani apresenta Raul ao
diretor da gravadora CBS, que o convida
para ser produtor de discos. Raul aceita
e passa a produzir para diversos artistas.
Em 1971, ele produz e participa do seu
primeiro disco de maior expressão
“Grã-Ordem Kavernista Apresenta
Sessão das Dez”. Porém,
só em 1972 no Festival Internacional
da Canção, todo o Brasil
conheceria Raul Seixas através
do rock-baião “Let Me Sing”.
Raul e sua banda, embora sem crédito,
interpretaram inteiramente o LP “Os
24 Maiores Sucessos da Era do Rock”
em 1973.
Era
chegada a hora de partir para seu primeiro
trabalho solo, o álbum “Krig-Ha
Bandolo!” pela Phiplips/Polygram.
E se o produtor Raul Seixas aprendeu
sua profissão no estúdio,
o jovem Raulzito foi desde cedo emérito
rato de livraria, lendo de tudo, desde
gibis a livros de filosofia. Nesse disco
Raul já conta com a parceria
de Paulo Coelho na maioria das canções.
Raul
começaria então, a destilar
todo seu veneno, ironia e humor ácido
contra a sociedade vigente e aos valores
impostos por ela. Na primeira música
do disco “Mosca Na Sopa”,
Raulzito já mostra que cutucaria
essa sociedade por muito tempo ainda
e que não adiantaria dedetizá-lo,
pois nem assim poderiam extermina-lo.
Canção essa que mistura
dois elementos musicais, começando
solenemente com o som de batucadas,
berimbau e palmas de rodas de capoeira
chegando até ao ritmo contagiante
do Rock ‘n Roll. Era Raul, começando
a perturbar o nosso sono.
Segunda
faixa, “Metamorfose Ambulante”
nasceu já clássica, se
tornando pouco tempo depois um sucesso
estrondoso. Nela Raul mostra todas as
suas faces, o Raul Guru, o Raul Raulzito,
o Raul Maluco Beleza e sobretudo o que
nem ele sabia o que era. Define perfeitamente
a consciência humana, mostrando
que não sabemos o que somos e
que amanhã seremos completamente
diferentes. Um ode ao livre pensamento
e à necessidade de reconsiderar
conceitos e opiniões. Uma das
mais importantes canções
do cânone raulseixista.
Como
de costume, Raul adorava modificar as
letras de suas músicas durante
os shows. Em um show em São Paulo,
1983, Raul alterou a letra de “Metamorfose
Ambulante” da seguinte forma:
“Eu prefiro ser essa metamorfose
ambulante, do que ter aquela podre velha
opinião formada sobre tudo, formada
sobre toda essa babaquice que esta ai
existindo e parando sobre nossas cabeças,
essa lama que a gente engole e não
faz nada, mas esse caos de gente é
o sinal de que algo esta pra acontecer.”
Que se concluiu numa performance arrebatadora.
Nesse
mundo de sobe e desce, altos e baixos,
“Dentadura Postiça”
define o que entra e o que sai.
“As
Minas do Rei Salomão”,
onde o real e o falso se encontram quando
o princípio encontra o fim. É
pensar na relatividade da importância
dos fatos e dos objetos pra quem se
esqueceu do passado e se perdeu no presente.
Violão
e clima espacial abrem e percorrem “A
Hora Do Trem Passar”, onde Raul
pergunta se é hora de partir
ou hora de chegar. Aliás tudo
passa, e já que vai passar porque
não esperarmos e admirarmos a
solidão do amanhecer?
Rock
‘n Roll rasgado e puro em “Al
Capone”, que junta Hendrix, Frank
Sinatra, Júlio César,
Al Capone e Jesus Cristo na imortal
frase de Bob Dylan: “Não
existe sucesso como o fracasso e o fracasso
não é sucesso algum”.
Gravada
no estúdio da CBS, Raul canta
em inglês e diz ter escrito para
Elvis Presley a canção
“How Could I Know”, sétima
do disco.
Em
“Rockixe”, Raulzito canta
a mediocridade e o ridículo do
“way of life” comandado
pela indústria capitalista, mesmo
que se encontre na esquina da falência
ele diz: “O que eu quero eu vou
conseguir!”
Cachorro-Urubu
afirma que “aquilo que aconteceu
na França sempre vai se repetir,
essa mesma briga por um cigarro de palha”,
sempre brigando pelo básico necessário.
Uma alusão aos movimentos estudantis
que tomaram a França em 1968.
Pra
fechar este grande álbum, um
dos maiores sucessos da década
de 70 no Brasil, que se tornou um clássico
absoluto da música brasileira.
Para promover o disco, Raul circulava
pelas ruas da cidade com o violão
na mão cantando “Ouro de
Tolo”, que é um tapa na
cara dos valores do ser mediano, mostrando
toda a mediocridade do ser humano.
"É
você se olhar no espelho se sentir
um grandissíssimo idiota, saber
que é humano, ridículo,
limitado, e que só usa dez por
cento de sua cabeça animal. E
você ainda acredita que é
um doutor, padre ou policial que está
contribuindo com sua parte para o nosso
belo quadro social."
Raul
nos mostra que o mundo vai além
disso que pensamos, que podemos mudar
nosso destino já que “existem
mais coisas entre o céu do que
supõe nossa vã filosofia”.
Pensamento esse, mostrado claramente
no final da canção: “Eu
que não me sento no trono de
um apartamento com a boca escancarada,
cheia de dentes, esperando a morte chegar.
Porque longe das cercas embandeiradas
que separam quintais, no cume calmo
do meu olho que vê assenta a sombra
sonora de um disco voador”
Esse
era apenas o trabalho inicial da carreira
solo de Raul Seixas, onde ele já
mostra as suas armas, suas doses de
luta contra o conformismo, porque como
ele mesmo diria: “Um microfone
nas mãos é uma grande
arma se usado com sabedoria!”
“Gita”,
o próximo disco de Raul faria
um sucesso estrondoso e é fator
responsável por livra-lo do exílio
nos Estados Unidos. E esse é
um outro álbum que em breve estará
na discografia básica.