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LEGIÃO
URBANA - DOIS
A Legião Urbana estourou nacionalmente
em fins de 1984, com um disco nitidamente
calcado em raízes punk e new wave.
Porém a consagração
viria mesmo com o segundo disco da banda,
DOIS, lançado em 1986, em meio
a um Brasil que se acostumava com a Nova
República e com o Plano Cruzado.
O
disco abre com uma gravação
ao vivo do trecho final da música
“Será”, porém
as semelhanças com o primeiro disco
não serão muitas, a começar
pelo clima folk da maioria das canções
e mesmo pelo tom gráfico do álbum.
“Daniel
na cova dos leões”, cujo
título é metafórico,
é a segunda “entregada”
de Renato Russo sobre sua opção
sexual; já em “Soldados”,
do primeiro LP, ele indiretamente mostrava
o que se tornaria explícito em
“Meninos e meninas” de 1989:
sua homossexualidade. “Daniel...”,
uma das poucas parcerias com o baixista
Renato Rocha, mostra claramente os conflitos
de Renato: “Aquele gosto amargo
do seu corpo[...]De amargo então,
salgado ficou doce”, para fechar
no deslumbrante final onde fica nítida
luta entre o que ele queria ser e o que
a sociedade esperava que ele fosse: “Mas
tão certo quanto o erro de ser
barco a motor e insistir em usar os remos”.
Vale lembrar que esta canção
é de 1985 e foi mixada por Russo
(há depoimentos de que durante
os intervalos da gravação
do primeiro LP, Renato já ensaiava
os arranjos de “Daniel...”).
“Quase
sem querer” é um dos hits
deste disco, letra triste, melancólica
e poética, tudo misturado num arranjo
folk inesquecível. O refrão
grava-se automaticamente na cabeça
já na primeira audição.
“Acrilic
on Canvas” possui um arranjo semelhante
aos feitos pela gravadora Factory, que
produziu, entre outros, Joy Division e
New Order. A letra é obscura e
mesmo mórbida, porém o ritmo
dançante contagia e alivia um pouco
o clima dark da canção.
Ao
final do lado A temos vários hits
em seqüência, “Eduardo
e Mônica” foi feita em 1982
e é baseada na história
real do antigo produtor executivo da Legião,
Rafael Borges, e sua ex-esposa; Renato
compôs esta canção
na sua época de “Trovador
Solitário” e toca todos os
instrumentos da música.
“Central
do Brasil”, que possui apenas arranjo
instrumental, cria um clima triste e esquisito
meio a la “final-de-tarde-chuvoso-sozinho-em-casa”
que dá o tom para a melhor música
do disco (na minha opinião): “Tempo
Perdido”. Com introdução
que lembra a guitarra de “The Headmaster
ritual” do disco “Meat is
murder” dos Smiths e letra semelhante
a um antigo sucesso do Aborto Elétrico,
“1977”, esta canção
escancara a depressão e a crise
existencial pela qual passava Renato na
época; a voz de Russo novamente
lembra Morrissey (a maneira que Renato
dançava no palco era nitidamente
influenciada pelo líder dos Smiths
e mesmo parecida com Ian Curtis), a letra
é tristíssima e o final
clássico. Logo depois há
outro instrumental onde é tocado
“Tempo Perdido” só
com violões; detalhe: algumas versões
do vinil não trazem esta versão,
economia de faixas? Esquecimento? Sabe
Deus.
“Metrópole”
abre o lado B lembrando os bons tempos
do punk, a letra foi amenizada, pois a
original era mórbida e suicida
(há sites que disponibilizam praticamente
todas as letras do Aborto Elétrico
e mesmo as versões em mp3). “Música
Urbana 2” possui um tom obscuro
e lembra os tempos de Renato pelas ruas
e madrugadas de Brasília, aliás,
qualquer um que curte ou curtia sair a
noite com amigos vai se identificar nesta
canção; o número
“2” é devido ao fato
de o Capital Inicial ter lançado
uma música homônima no seu
primeiro LP de 1986, com participação
de Renato na composição
da letra.
“Andréa
Doria” (que conforme este mesmo
site já divulgou, é o nome
de um navio) é outra música
triste, onde é tratado o tema da
separação. Renato está
incisivo: “Mas percebo agora que
o teu sorriso vem diferente, quase parecendo
te ferir”, para concluir de maneira
resignada e melancólica: “Nada
mais vai me ferir. É que eu já
me acostumei, com a estrada que eu segui
com minha própria lei”. Talvez
seja a segunda música mais deprê
do disco. Por fim, “Índios”
(com aspas mesmo) fecha o disco e um ciclo;
o teclado vai subindo juntamente com a
voz de Renato, dando a impressão
de que um coro inteiro de “índios”
canta junto; o refrão figura entre
os mais bonitos e depressivos já
compostos por Renato e o final, só
com violão e um efeito “vento
passando pela cidade”, é
perfeito.
Após
este disco a Legião lançaria
“Que pais é este” retomando
a linha punk e depois enveredaria por
caminhos religiosos e introspectivos.
Portanto, “DOIS” torna-se
um disco que fecha o ciclo juvenil e inocente
da banda, apontando para novos caminhos
e novas possibilidades. Além disto,
é o disco com mais hits juntos
que já ouvi, praticamente todo
o álbum é perfeito, coeso
e estranho, a começar pela capa
e o encarte (no CD a foto do encarte é
outra, onde dá pra identificar
o rapaz: Marcelo Bonfá) que lembram
o clima mórbido de “Closer”
(último disco do Joy Division).
Pra finalizar fica a questão: o
DOIS do título refere-se ao número
do Lp, ao casal da capa do encarte ou
a nenhum dos dois? |