O experiente baterista Paulo Thomaz, o "Paulão" (ex-CENTÚRIAS, FIREBOX, PROPOSITAL e CHEAP TEQUILLA), analisa a cena daquele importante momento: "Naquela época, as pessoas apoiavam mais as bandas nacionais porque os shows de bandas internacionais não existiam. O público era fiel e comparecia aos shows das bandas nacionais". Em comparação com a cena atual, Paulão comenta: "O Centúrias tocava em vários teatros, o que não acontece hoje em dia pois as bandas iniciantes ou médias só tocam em barzinho. O underground era muito mais legal, pois atualmente ou você toca, por exemplo, no Black Jack Bar ou direto no Olympia". Os fãs do estilo também relembram com saudades dos "velhos" pontos de encontro como o Carbono 14, o Cine Rock Show, as manhãs de sábado na Woodstock Discos além da Fofinho Rock Club e a Led Slay, que resistem bravamente até hoje. Naquela época, o grande "barato" das bandas era cantar em português, e, das acima citadas e mais, KORZUS, AVENGER, PERFORMANCES, TITÂNIO, WITCHCRAFT, DEIMOS, VIÚVA NEGRA, ANTHRO, PLATINA, MICROPHONIA, VULCANO, entre muitas outras, apenas o KARISMA, um power-trio do ABC paulista compunha em inglês, chegando a gravar em 1983 seu primeiro álbum, intitulado Revenge, pela Gravadora Baratos Afins. Aliás, foi com a mais famosa gravadora independente e importante do Brasil, a Baratos Afins, que já havia lançado os trabalhos do PATRULHA DO ESPAÇO, ARNALDO BAPTISTA, OS MUTANTES, entre outros, que o Heavy Metal teve sua grande chance de ser registrado e divulgado, com vários lançamentos como as Coletâneas SP Metal I (em setembro de 1984, com CENTÚRIAS, VÍRUS, AVENGER e SALÁRIO MÍNIMO) e SP Metal II (em 1985, com KORZUS, SANTUÁRIO, ABUTRE e PERFORMANCES), trabalhos que foram relançados em CD. A Baratos Afins ainda lançou trabalhos individuais de bandas como HARPPIA, CENTÚRIAS, A CHAVE DO SOL, GOLPE DE ESTADO, PLATINA, CONTROLLE, entre outros. Contudo, surpreendentemente foi a banda oriunda de Belém/PA, STRESS, que gravou em agosto de 1982 o primeiro LP de Heavy Metal no Brasil, intitulado Stress. A resposta carioca ao SP Metal foi o lançamento do cultuadíssimo Split-LP Ultimatum com o DORSAL ATLÂNTICA e o METALMORPHOSE, pois a cena no Rio de Janeiro já era muito grande e forte. O Circo Voador, o Cascadura Tênis Clube, o Caverna de São João do Miriti, o Caverna II em Botafogo, além de vários teatros, como o Teatro da Cidade e os locais cedidos pela Prefeitura para shows e festivais abrigavam as bandas cariocas. "O Cascadura Tênis Clube foi o primeiro local no Rio em que houve o encontro dos grupos da Zona Sul com a Zona Norte do Rio e havia muita diferença entre estes. O da Zona Sul já tinha conhecimento das bandas novas, como o Venom, por exemplo, do visual mais agressivo e o grupo da Zona Norte ainda tinha aquele visual mais "roqueirão hippie", com camisetas do Led Zeppelin...", relembra Carlos Lopes, guitarrista e vocalista da DORSAL ATLÂNTICA. Exemplos de bandas cariocas não faltam: DORSAL ATLÂNTICA, METALMORPHOSE, MORTALHA, AZUL LIMÃO, TAURUS, ANSCHLUSS, KRIPTA, CALIBRE 38, EXPLICIT HATE, NECROMANCER, EXTERMÍNIO, METRALLION, FIM DO MUNDO, INQUISIÇÃO, KRONUS, DEATHRITE e outras. Vale ressaltar que no Rio de Janeiro o público Punk e Heavy sempre iam juntos aos mesmos shows e foi lá que as famosas "rodinhas" começaram. Em dias de shows o público dava outro show à parte, na frente os Heavies cabeludos agitando e "batendo cabeça", no meio as "rodinhas" e no fundo os Punks agitando e batendo suas correntes no chão. Um grande "boom" também ocorreu em Minas Gerais, com o lançamento do Split-LP que trazia o SEPULTURA e o OVERDOSE, marcando uma nova fase para o Heavy nacional. A Cogumelo Discos de Belo Horizonte, responsável por este lançamento continuou apoiando as bandas de Minas Gerais e do resto do país, lançando vários trabalhos interessantes como as famosas Coletâneas Warfare Noise I e II, e, ainda o trabalho de bandas da cena do Thrash e Death Metal como o SEPULTURA, OVERDOSE, CHAKAL, HOLOCAUSTO, SARCÓFAGO, EXPLICIT HATE, ATTOMICA, MUTILATOR, entre muitas outras. O público mineiro delirava com as grandes apresentações destes nomes no ginásio do Ginástico em Belo Horizonte. No sul do país os gaúchos respondiam com o lançamento da coletânea Rock Garagem, lançada em 1984 e que trazia nomes como o LEVIAETHAN, ASTAROTH e os punks dos REPLICANTES. UM NOVO IMPULSO Parte de tudo que ocorria naquela época deveu-se a realização do grande Festival "Rock In Rio" em 1985, pois de lá para cá a cena cresceu assustadoramente. Assim como aconteceu depois da passagem do Kiss pelo Brasil, o "Rock In Rio" foi o ponto de partida para muitos jovens entrarem de cabeça no mundo da música pesada. Os espaços se abriam e surgiam novas bandas, lojas e importadoras de discos, programas de rádio especializados em Heavy, fábricas e importadoras de instrumentos musicais e gravadoras independentes. Foi o caso da Rock Brigade, o antigo fã-clube de Heavy Metal que nesta altura virava gravadora com o selo Rock Brigade Records e lançava além de bandas nacionais, como o VULCANO, VODU, VIPER, bandas estrangeiras, fato esse que ocorreu também com a Woodstock Discos (SP), Devil's Discos (SP), Heavy (RJ), Point Rock (RJ), Fucker Records (ABC) e a Whiplash Discos (RN) que apostaram em vários lançamentos de bandas nacionais e estrangeiras. Novos fã-clubes de bandas internacionais, nacionais e do Heavy Metal em geral se formavam e, dentre estes, o mais importante foi o Heavy Metal Maniac (São Caetano do Sul/SP), que, assim como a Rock Brigade, divulgava tudo que acontecia no underground mundial e mais tarde virava produtora de discos e eventos.
Como tive o privilégio de estar presente, confesso que todos estavam receosos, mas nada aconteceu e, na saída, o proprietário da Woodstock Discos, Walcyr, fez uma caminhada com o público até o metrô Paraíso no melhor estilo líder de gangue, carregando uma arma de fogo (que ele jurava não portar) para espantar qualquer tipo de animosidade que poderia vir a acontecer. Naquela época pude conhecer a fundo o cenário underground do Metal nacional, pois com minha câmara de VHS fui um dos pioneiros a fazer filmagens de shows para uma série de bandas de todo o país, inclusive o famoso Sepultura e Ratos. Além destes, o Mambembe foi palco para o surgimento de vários outros nomes para a cena, entre eles o Necromancia, MX, Minotauro, Salário Mínimo, Desaster, Exhort, Anthares, Angel, Ozone, Proteus, Spitfire, Naja, Cova, Inox, Krusher, Máscara de Ferro, Genocídio, além dos consagrados Korzus, Centúrias, A Chave, Golpe de Estado, Viper, Vodu e Vulcano. Alguns shows entraram para a história, como o "No Posers" do Centúrias, com os tradicionais discursos do baterista Paulão, desta vez atacando com veemência a cena do Hard/Glam, que na época era chamada de "farofa" ou "falso Metal". O curioso é que hoje em dia o próprio Paulão admite curtir bandas como Cinderella, Ratt e Mötley Crüe. Quem também marcou época foi o Anthares, tocando um Thrash Metal no estilo Exodus, com as inigualáveis encenações de Henrique "Poço", que devem ter servido de inspiração ao vocalista Punk do Siegrid Ingrid. Henrique costumava dizer: "Aqui não é cuzão não, é Thrash!". O roadie do Sepultura, Kichi, fazia parte da banda de Thrash Metal Desaster, que também tinha Falador no baixo, Ricardo P. na guitarra e William na bateria, e andava pelo palco vagarosamente cantando num dialeto alemão/inglês de fazer inveja. Outras apresentações foram marcantes, com o Mambembe se transformando num castelo nos shows do Máscara de Ferro. Lá também ocorreu o primeiro e único show da carreira da banda paulista Inox, que contava com Paulinho 'Heavy' no vocal, Fernando 'The Crow' na guitarra e Junior (Patrulha do Espaço) na bateria. A cena Glam, atacada por Paulão do Centúrias tinha seus fiéis adeptos com o Salário Mínimo do vocalista China Lee, o Proteus e as meninas do Ozone, além do Abutre. Mas, ninguém vai mesmo se esquecer da incrível técnica do guitarrista Alex do Minotauro, que impressionava à todos tocando com uma guitarra Rey e um pedalzinho Boss Heavy Metal. A música "Machado Mortal" reinava absoluta! Certa vez a banda Spitfire, fez a abertura de um show do Viper. Era para ser somente um aperitivo, mas o guitarrista Xinho (ex-Vodu), o baixista Cesar Dechen (Editor do Rock Online), o vocalista Robson (ex-Performances), o baterista Serginho (Vodu) começaram a detonar covers com uma perfeição incrível. Era Malmsteen, Michael Schenker, Ozzy, Dio, entre outros. Resultado, todos saíram de lá comentando sobre o Spitfire e quase se esqueceram do Viper, que tinha acabo de lançar o álbum "Soldiers Of Sunrise". Quando A Chave entrava no palco, todos ficavam calados, prestando atenção na técnica dos músicos. O vocalista Beto bem que tentava animar a platéia, mas todos queriam ver o então novato Eduardo Ardanuy (hoje no Dr. Sin), que havia substituído o guitarrista Rubens Gióia. O baixista Tiguêz (hoje no Patrulha do Espaço) era outro que adorava fazer discursos durante o set e como na época as subdivisões do Metal estava iniciando, Tiguêz falava sobre a união dos fãs, dos povos, das raças e a banda seguia com "A Chave é o Show", música que versava sobre este tema. Outro que costumava encher a casa era o Vulcano, de Santos, que contava com o irado vocalista Angel e o abnegado guitarrista Zhema. A banda fazia um Death Metal pioneiro e inovador, já com muitos 'blasting beats' de batera, que hoje fazem dos gaúchos do Krisiun uma das bandas mais respeitadas da cena extrema do Metal. Os shows do Ratos de Porão também eram muito concorridos e um em especial merece destaque. Foi o dia que deu tudo errado para o R.D.P. por causa das falhas no pedal do guitarrista Jão. O baterista Spaguetti fazia a marcação nas baquetas, começava a música e o pedal de Jão perdia a distorção. Isto se repetiu umas cinco vezes e depois do ocorrido, João Gordo, no melhor estilo comediante, não parou mais de repetir e perguntar para o público: "Tá uma merda este show, não?". O mais legal e engraçado eram as incursões do público. Certa vez, um lunático chamou João Gordo de Wilza Carla e ele ficou possesso, passando o show inteiro intimando o cara para a briga. O autor da palhaçada, obviamente, não se entregou. Em outra ocasião, o responsável pela iluminação, o eterno Vespaziano Ayala (que já fez parte do staff da Revista Rock Brigade e trabalhou na casa Dynamo Brazilie) subiu ao palco para checar o equipamento que estava falhando quando ouviu um sonoro: "Sai daí Pedro de Lara!". Ayala ficou transtornado e partiu para o microfone gritando: "Pedro de Lara é a puta da sua mãe!". O público então ecoou como se o Mambembe fosse um estádio de futebol: "Pedro de Lara...Pedro de Lara...Pedro de Lara!!!". A única alternativa de Ayala foi voltar à mesa de iluminação e fazer com que o show do Korzus começasse.
Pelo Black Jack passaram todas as bandas da cena, à exceção do Sepultura. Andreas Kisser conseguiu realizar seu "sonho" na festa do Korzus em dezembro de 1999, quando ele e Derrick Green participaram de uma 'jam' tocando músicas do Sepultura e do Slayer. Este foi um dos dias memoráveis do Black, pois além da surpresa com Andreas e Derrick, os fãs e amigos da banda puderam rever o guitarrista Ni Castro ("a palhetada mais precisa do Thrash nacional") e o baterista Betão, ambos da época do álbum "Mass Illusion". Todos se emocionaram com a performance da velha "família Korzus". Depois da primeira fase, o atual line-up subiu ao palco fez um set arrasador. OUTROS PONTOS MEMORÁVEIS A Praça do Rock mudou de endereço, saiu da Aclimação e foi parar no Parque do Carmo, mesmo assim o entusiasmo do público continuou comparecendo aos festivais. Outra casa que abrigou bandas de diversos estilos foi o Dama-Xoc, que tinha um ótimo sistema de som, iluminação e que recebeu até shows internacionais, como o Nuclear Assault e o Ramones. O Dama-Xoc rapidamente virou "point" fixo da cena do Metal nacional e em apresentações de bandas como Sepultura, Golpe de Estado, A Chave, Viper, Korzus, Ratos de Porão, Taffo, Avalon, Anjos da Noite, entre outras, a casa ficava completamente lotada. Foi lá que aconteceu uma memorável "jam" com Sepultura, Ratos de Porão e Korzus, que serviu como despedida do R.D.P., que partiria para sua primeira turnê internacional. Neste dia, o Korzus fez um grande tributo ao Slayer e o Sepultura tocou Black Sabbath, Dead Kennedys, além de Septik Schiyzo com João Gordo na bateria. O último suspiro do Dama-Xoc, já em decadência, foram as apresentações do Rage e Grave Digger, em 1997. Depois disto a casa abriu espaço ao Pagode. Assim como o Dama-Xoc, o Projeto SP dava chance para bandas nacionais tocarem num palco de grande dimensão e lá os fãs puderam presenciar shows inesquecíveis de bandas como Sepultura, Korzus, Viper, Golpe de Estado, Centúrias, Ratos de Porão, MX e Overdose, além de uma série de shows de bandas internacionais, como Nasty Savage, Testament, Systers Of Mercy, D.R.I., Motörhead, entre outros. Alguns outros "points" ainda vingavam, como a Led Slay, Fofinho Rock Club, Heavy Metal da Vila Carrão, Espaço Alquimia, Aeroanta, Projeto Leste, Victoria Pub, Casa de Cultura do Ipiranga, Brittania, Blue Note, Projeto Cadeira Elétrica, Circo Escola Picadeiro, Dynamo Brazilie e Woodstock Music Hall. Dentre estas a Led Slay ainda resiste, assim como a Casa de Cultura do Ipiranga com seus festivais esporádicos, além do Woodstock Music Hall, que reabriu recentemente as portas e vem realizando shows de bandas de Rock e Heavy Metal. Estes locais abrigaram quase todo o cenário nacional da música pesada no final dos anos 80 até a metade dos anos 90. Isto sem contar com os grandes e, às vezes, desorganizados festivais que aconteciam nas cidades do interior paulista: Guarulhos, Americana, Jundiaí, São José dos Campos, Campinas, Araraquara, Rio Preto, Sorocaba, São José dos Campos, Pindamonhangaba, e todas do ABCD paulista e seus conhecidos espaços: Clube Aramaçãn ("a casa do Golpe de Estado"), Shock Bar, Praça dos Tamoios, Colégio Salete, Move's Bar, Choppinho, Teatro Elis Regina, Teatro Municipal de Santo André e o Paço Municipal de São Bernardo do Campo. Por estes espaços passaram, além das bandas já citadas, nomes como: Sarcófago, Necromancer, Volkana, Mutilator, Attomica, Firebox, Taurus, Azul Limão, Hammerhead, Cruciform, Cova, Spectrus, Megaton, Proteus, Revenge, Tormenta, Knock Out, Ranger, Sídero, Crosskill, Portrait, Okotô, Blasphemer, Exon, Scars, Ajna, Trevas, Panic, Destroyer, The Mist, Pestilence, Acid Storm, Detroit, Sacred Curse, X-Rated, Anjos Da Noite, Megatério, Garcia & Garcia, Baphomet, Mr.Green, Alta Tensão, Witchhammer, Mitrium, Zero Vision, Rip Monsters, Siegrid Ingrid, Last Joker, Extravaganza, Cortina De Ferro, Pitbulls On Crack, Scarlet Sky, Ear, Nervochaos, Hard Hearted, CODE, Anjo Dos Becos e centenas de outras.
No meio do set o cara da produção teve um chilique porque os fãs estavam invadindo o palco para o "stage diving" e resolveu tentar interromper o show. Ele chegou ao lado do baterista Hardcore e começou a gritar: "Hei, menino, acabou. Fala para eles acabarem com o show". Resultado, a banda inseriu mais duas músicas e o show foi ainda mais longo... Neste mesmo dia, o Vulcano sobe ao palco: "Os portais do inferno se abrem...com vocês Vulcano". A banda começa o show e quando o vocalista Angel começa a cantar, um cara tem a grande idéia de jogar serragem (o local era um Circo) na cara de Angel. Ele cospe, continua a cantar e depois da música dispara: "O filho da **** que jogou confete na minha boca sobe aqui se for macho". Obviamente o cara não se entregou e o show continuou, com Arthur descendo a lenha na bateria e Zema triturando a guitarra. Em todas as paradas Angel sempre dava seu recado ao "fã": "Vai jogar confete na bunda da sua mãe, filho da ****". Até hoje ninguém sabe qual foi o motivo, mas esta passagem marcou a carreira de Angel, que até hoje se irrita ao lembrar do assunto. Mas, não foram só nestas cidades que ocorriam os shows, pois no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, todo o Nordeste e Norte e no Rio Grande do Sul a cena era muito forte. O BRASIL EXPORTANDO SEU METAL Se, por um lado, as bandas estrangeiras vinham ao Brasil com mais freqüência, em contrapartida as bandas nacionais conseguiam também seu espaço no mercado externo, algumas rumando direto ao primeiro mundo, como é o caso do Angra, que representou com dignidade e competência toda a força do nosso Metal no cenário internacional, especialmente na França e no Japão. Na época do álbum Holy Land, o segundo da carreira do Angra, eu trabalhava como roadie do baterista Ricardo Confessori e chegamos a ficar mais de 1 mês na estrada durante a turnê promocional do EP Holy Live. Foram shows memoráveis em várias cidades da França, na Grécia, Alemanha e no festival Gods Of Metal, em Milão/Itália. TRETA EM MILÃO (Itália) No dia do Gods Of Metal, havíamos viajado da Alemanha para Milão e fui repentinamente acordado no "tourbus" com o aviso do tour manager: "Batalla (ele não conseguia pronunciar Batalha), 15 minutes!!!", dizendo que eu tinha 15 minutos para me lavar, tomar café e entrar no "Pallavobis" (Ginásio onde ocorreu o festival em 1997) para montar a bateria do Eldritch, que estava sendo a banda de abertura do Angra e seria a primeira a se apresentar no festival. Tudo bem, já estava acostumado com a pressão, mas essa foi impressionante. Ao adentrar ao local, nem imaginava o que estava por vir. Peguei parte do equipamento no trailler e rumei ao palco, contando com a ajuda de 5 "stage hands" (carregadores). Quando subi, tomei outro susto. Dez mil pessoas gritando como loucos. Não sei como consegui, mas com a ajuda de um "stage hand" português, montei a batera em menos de 10 minutos e quando fui passar o som tomei mais dois sustos. Na primeira batida no bumbo, todos os presentes gritaram: "hey!", não acreditei. Mas, Adriano (baterista do Eldritch) acabou com a brincadeira, pois alegava que o som não ia ficar legal porque eu tinha uma pegada muito forte. Os shows correram sem maiores problemas até que chega a vez do Angra. A equipe do Manowar, que já havia deixado as bandas anteriores (Rage, Grave Digger, Moonspell, Time Machine e Eldritch) quase às escuras e com pouca potência sonora, comunica que o Angra não teria toda a potência no som e que a iluminação seria reduzida. Foi treta geral! As bandas se uniram e por pouco Joey de Maio & Cia. Iriam ver Luis Mariutti testando seu "Muay Thai" (boxe Tailandês)... Mas, não acabou. Ao final do show do Angra, que obteve uma excepcional recepção do público, o "tour manager" do Manowar chegou até nós (roadies do Angra) dizendo: "Vocês tem 15 minutos (de novo!!!) para tirar toda esta tralha daqui, porque agora é Manowar!". Engana-se quem pensa que ligamos para o que aquele velho havia ordenado, pois já estávamos fora da área do palco, no corredor de saída do ginásio. Mesmo assim, o velho chegou e apontou para seu relógio dizendo, no melhor estilo canastrão de faoreste: "Seu tempo acabou, vão nos ver conosco!". Não tive dúvida, larguei o surdo da batera no chão e disse: "Foda-se seu velho de merda, isto é 'endorsse' (patrocínio), este foi o último show de nossa turnê e se você quiser tire tudo isto daqui, porque este equipamento não vai mesmo voltar para o Brasil. Foda-se!!!". Treta formada, o Gargamel (outro roadie do Angra) começa a xingar o velho em português, e se não fosse nosso amigo português o 1 round começaria em instantes e nós teríamos a ajuda de Spiros e Sven (Rage), Rafael e Luis (Angra). Depois disso comecei a perceber o porquê do Manowar ter sempre o som num nível mais alto... Isto não significa que não sou fã da banda, mas não deixar os outros fazerem suas apresentações com a mesma potência sonora em detrimento da imagem não é algo muito louvável. Na realidade nem sei se isto parte dos músicos, mas aquele velho deve ter passado a pensar duas vezes antes de intimar integrantes e roadies de outras bandas GORDO AGRADECE AO PÚBLICO METAL O Ratos de Porão é outra banda que sempre faz turnês pela Europa, tocando nos mais variados "buracos" e também em locais de grande porte. A banda já uma lenda do Punk mundial graças às performances de João Gordo, Jão & Cia. Lembro-me perfeitamente que pouco antes da primeira excursão do RxDxPx à Europa ocorreu um show especial no Dama-Xoc, em São Paulo / SP, com a presença do Sepultura e do Korzus fazendo "jam-sessions" memoráveis. Depois de tocar bateria com o Sepultura, João Gordo foi à frente do palco para discursar, dizendo repetidas vezes: "Obrigado, muito obrigado 'headbangers', vocês fizeram isto possível!", comentando à respeito da enorme receptividade da banda com o público de Heavy Metal e da união entre os "bangers", fato que não acontecia com o público Punk, que na época tratava João Gordo como traidor do movimento.
O FUTURO DO METAL NACIONAL Dar o mínimo de apoio a quem toca algum instrumento e monta uma banda é dever nosso, da imprensa. Mas, no Brasil, os problemas já começam no terreno familiar porque muitos pais não conseguem ver em seus filhos o talento para a música e acham que é um "hobby" que atrapalha os estudos. Grande parte dos músicos de bandas internacionais começaram a tocar por incentivo dos pais, que lhes compraram instrumentos e nem por isso deixaram de estudar. É uma questão cultural. Mesmo assim, o que estamos vendo no cenário do Metal nacional é que ninguém quer ser fã, todos querem "ser da banda". Nada contra ser músico, pois além de saudável deve ser encarado como profissão. O que se exige é, no mínimo, profissionalismo, pois só os mais insistentes vão vingar. Brincar de fazer música é uma coisa e tentar carreira como músico é bem diferente. Devemos valorizar cada vez mais o produto nacional de qualidade, pois muitas bandas foram com a cara e a coragem se aventurar no exterior e conseguiram vingar por sua garra e competência. Mesmo assim, infelizmente, ainda não podemos nem cogitar em traçar um parâmetro da cena nacional com a do Metal internacional e da verdadeira indústria da música pesada que já está há anos fincada na Europa, Estados Unidos e Japão. No Brasil, há competição entre bandas ao invés do auxílio mútuo. Há rachas de fãs das diversas subdivisões do Metal, o que não fortifica e sequer forma uma cena. Os promotores de shows acham que só de ceder o espaço para bandas nacionais já estão dando muito, o que inviabiliza uma verdadeira turnê pelo Brasil, como acontece com freqüência entre as bandas norte-americanas e alemãs, por exemplo. Vários outros problemas muito mais graves precisam ser enfrentados, como a pirataria e os "jabás" das rádios e programas de televisão, fatos lamentáveis que todos sabem que existe, mas ninguém comenta, nem mesmo o Ministério Público, que fica na espera de que algum coitado denuncie e bote a cara para bater para que depois se tome as providências legais, instaurando um inquérito. Além disso, as rádios Rock do país risíveis. Desde 1994 os fãs do estilo ficaram perdidos, com a retirada do ar de rádios importantes como a Fluminense FM do Rio de Janeiro e a 97 FM de Santo André em São Paulo, que deram espaço à música Dance. Atualmente algumas se salvam, como por exemplo a Brasil 2000 FM de São Paulo / SP e a 96 FM de Curitiba / PR, mas, uma rádio ROCK de princípios como os fãs ouviam antigamente ficou difícil. O que temos são projetos de rádios rock, comandadas por empresários (sempre os mesmos) que somente visam a parte comercial. Estão certos, mas os discursos são sempre os mesmos. Num determinado momento o Rock "não pega" e a estação fecha as portas e anos depois acontece o contrário. Sob este aspecto o Brasil está apenas engatinhando, o que é uma pena, pois se houvesse uma mobilização, conscientização e união efetiva dos fãs e das bandas, as empresas de grande porte iriam descobrir uma verdadeira mina-de-ouro que é a indústria do Heavy Metal e do Rock. No mundo todo é, por que aqui não podemos fazer o mesmo?
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