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A CENA BLACK METAL CARIOCA
O inferno na terra

Autor do texto: Ricardo Franzin
Publicação original: Rock Brigade nº191 (junho/2002)


Os lugares-comuns são recorrentes quando se trata do Rio de Janeiro. A simples menção ao nome da cidade invariavelmente faz vir à mente imagens consagradas, como as praias, os morros, o sol, as mulheres, Corcovado, Pão de Açúcar e o cacete a quatro. Porém, no microcosmo do metal extremo, este ensolarado e belo recanto da geografia brasileira tem ficado famoso por um motivo bastante diverso, quase improvável: a qualidade do cenário black metal local. De alguns anos para cá, inúmeras bandas praticantes do estilo surgiram por aquelas paragens tropicais, logo configurando-se entre as melhores do Brasil em se tratando do gênero – algumas inclusive superiores à média do que se produz no underground mundial atualmente. É justamente sobre esse cenário – e suas controvérsias – que iremos falar nessa matéria.

HORDAS
A mais antiga banda de black metal do Rio de Janeiro ainda na ativa é o Nocturnal Worshipper, que iniciou atividades influenciado por formações como Hellhammer, Bathory, Venom, Sodom, Destruction e Mayhem. “O Nocturnal Worshipper foi formado no inverno de 1993 por Hofgodhar, Adrameleck e Wizard, tendo como um dos principais objetivos resgatar as raízes do genuíno black metal da década de 80, seguindo a linha sonora que era executada pelos pioneiros do estilo, proposta esta que nunca havia sido feita por outra banda no Brasil até aquela época”, diz o baixista Hofgodhar. O Nocturnal lançou a demo The Lords Of Occultism em 1994 e o 7”EP Cerimonial Circle em 1995. Segundo Hofgodhar, ambos tiveram ótima aceitação por parte do grande público underground no Brasil e no exterior, tendo suas cópias rapidamente esgotadas (para quem não possui tais materiais, uma boa notícia: os mesmos serão relançados em breve em vinil e CD oficiais pela Tyrant Records/Dies Irae). Porém, a saída de Wizard levou a banda a ficar inativa por cerca de um ano e meio no final de 1996. “Tivemos muitas dificuldades em conseguir pessoas sérias, dedicadas e competentes para substituí-lo”, conta Hofgodhar. “No início de 1998, a banda retornou com suas atividades, com novos membros, porém, mantendo sempre a linha sonora original. No final de 1998, houve a saída de Adrameleck, que também optou em seguir trabalhando apenas com a banda Apocalyptic Raids, devido à falta de tempo para se dedicar integralmente às duas bandas. Testamos algumas outras formações durante alguns meses posteriores, até que nos estabilizássemos como um quinteto em 1999, e pudéssemos realizar a gravação do primeiro CD, em 2000 [The Return Of The Southern Tyrants]. Em setembro de 2001, Amazarak deixou a banda devido a problemas pessoais. O Nocturnal Worshipper – com Thuringwithal (V), Hofgodhar (B), Kataris (G) e Radagast (D) – irá completar 10 anos de existência ano que vem e, portanto, é a mais antiga banda de black metal do Rio de Janeiro.”

Na condição de grupo mais antigo, o pessoal do Nocturnal Worshipper certamente tem opiniões importantes a respeito do que ocorre no cenário local – e elas chegam a ser surpreendentes. “Há excelentes bandas, mas não só de black metal, que estão na ativa e nos fazem crer que o cenário carioca ainda não acabou”, diz a vocalista Thuringwithal. “Existe, no Rio, uma grande corrente da vanguarda oitentista e esses, sim, são fiéis representantes da cena underground, pois presenciam os shows, ajudam o trabalho de outras bandas e não se limitam a ficar posando de estrelas do metal num barzinho da Rua Ceará – que é onde fica o Garage –, gastando dinheiro com cerveja ao invés de prestigiar os shows na casa ao lado, onde as bandas costumam tocar em condições precárias e, diga-se de passagem, não ganhando nada e, às vezes, até pagando para se apresentar. Em termos de black metal, discordamos totalmente que haja um celeiro de grandes bandas do estilo, chegando-se absurdamente a comparar-se [o Rio] com a Noruega da virada da década de 90. Esse tipo de afirmação é típico de pessoas que nunca participaram da cena daqui e estão totalmente equivocadas com relação a um boom. No Rio de Janeiro, algumas bandas apreciam o estilo porque está na moda. Só quem presencia o underground carioca nos dias de hoje sabe o que realmente acontece.”

Uma outra banda carioca, que também vem alcançando enorme reconhecimento no black metal brasileiro, o Mysteriis, igualmente dá a sua opinião. “Eu não diria que há tantas [boas bandas] assim, pois, das que conheço, só umas quatro ou cinco são realmente sérias e de qualidade”, diz o guitarrista Mantus. “Porém, existem muitas outras hordas das quais apenas ouço falar, ainda não tive a oportunidade de ouvir. Aqui, realmente o cenário está em alta, não só para o black metal, como também para outros estilos de metal. Mas um aspecto importante a ser citado é que essas bandas que estão surgindo, e as que já surgiram, foram em parte graças ao Mysteriis. Não porque sejamos a melhor horda daqui, mas sim pelo fato de que ninguém antes alcançou e conquistou o que conquistamos. O cenário alguns anos atrás se encontrava estagnado e, após o lançamento do nosso primeiro CD, o cenário underground carioca tomou uma certa força, revigorando-se. Acho que isso tudo serviu para mostrar ao Brasil que, se lutarmos com seriedade, todos nós podemos alcançar nossos objetivos. Todos somos capazes!”

O Mysteriis foi formado por Mantus e Agares em 1998 e, de fato, tornou-se rapidamente um representante fortíssimo do black metal do Rio de Janeiro. “O objetivo era fazer um black metal tosco e agressivo, influenciado por bandas da década de 80 e início da de 90, como Sarcófago, Slayer, Venom, Hellhammer/Celtic Frost, Sextrash, Bathory, Sodom, Mayhem, Darkthrone, Burzum, Immortal, Emperor, entre outras”, continua Mantus. “Em janeiro de 1999, nós gravamos nossa primeira demo tape, Dreaming With The Darkness Cold, e, em março, a segunda, Nocturnal Celebration, que teve uma repercussão muito maior e nos rendeu um contrato para o primeiro CD, que foi About The Christian Despair, lançado em agosto de 1999 pelo selo mineiro Demise Records. Este debut teve uma ótima repercussão no cenário brasileiro, com críticas bastante positivas da parte de público, zines e revistas especializadas. Em junho de 2000, lançamos o EP Fucking In The Name Of God, mas, infelizmente, por problemas com a formação da horda, ficamos praticamente um ano inteiro trabalhando para retornar as atividades e não conseguimos fazer uma boa divulgação deste CD. Nesse meio tempo, entrou um novo baixista, Satanachia, excluímos os teclados de nossa música, deixei meu posto de guitarrista para Veltis e assumi a bateria. Atualmente, Veltis deixou o Mysteriis para se dedicar exclusivamente à sua vida profissional e entrou o baterista Leghor Supay, fazendo com que eu voltasse para o posto de guitarrista. Estamos ensaiando muito e finalizando o material para o novo álbum, o qual garantimos ser o mais extremo e profano de nossa carreira.” Hoje, o Mysteriis é Mantus (G), Agares (V), Satanachia (B), Troian (G) e Leghor Supay (D).

Este último é também baterista de uma das mais promissoras bandas do black metal carioca, o Unearthly. Prestes a lançar seu CD-debut, o grupo se destacou no cenário brasileiro com suas duas estupendas demos, Blessed Are The Destroyers Of False Hope e Living Under The Sign Of Blasphemy, já sendo considerado um dos melhores nomes do metal extremo nacional. O frontman Lord Thoth conta para a RB: “Começamos em 1998 como um trio, eu, o M. Mictian e o baterista L. Simões, que acabou saindo um tempo depois, o que nos fez testar vários bateristas por um período de cerca de cinco meses, até que entrou na banda o Inferiis. Logo depois, também entraram o guitarrista Kaften e o tecladista Hysrucs Midgard. Com essa formação, começamos a fazer shows e a ganhar o reconhecimento do público. Gravamos o nosso primeiro CD-demo, Blessed Are The Destroyers Of False Hope, que teve uma grande aceitação. Depois de vários shows de divulgação, dentro e fora do Rio de Janeiro, o baterista Inferiis deixou a banda e no seu lugar foi rapidamente incluído o baterista Leghor Supay. Com a nova formação, o Unearthly fez mais alguns shows e depois entrou mais uma vez em estúdio, para gravar o que seria o segundo CD-demo, Living Under The Sign Of Blasphemy, que foi muito bem recebido pelo público e pela crítica, melhor até do que o primeiro. Recentemente, em maio de 2002, o guitarrista Kaften foi expulso da banda por problemas pessoais e diferenças ideológicas com os outros membros.”

O Unearthly, que hoje é Lord Thoth (V/G), M. Mictian (B), Hysrucs Midgard (K) e Leghor Supay (D), está em pleno processo de gravação do CD Infernum: Prelude To A New Reign, que sairá pela Encore Records e é um dos discos de estréia mais esperados do underground brasileiro, pois deve trazer o mesmo black metal moderno e grandioso que ouvimos nas demos da banda. “Não achamos que tenhamos influências de outras bandas, simplesmente tocamos o que gostamos de ouvir, somos totalmente honestos em nossa música”, diz Lord Thoth. “É claro que gostamos de outros grupos, temos nossas bandas preferidas, mas não influem diretamente em nossa música. Já fomos comparados a várias bandas, de estilos diversos, desde Marduk a Dimmu Borgir. Evitamos parecer com uma ou outra banda, simplesmente tocamos o que gostamos de ouvir.” E sobre o black metal do Rio? “Eu acho que a cena no Rio de Janeiro esteve morta por um tempo, com as mesmas bandas de sempre, o mesmo público de sempre”, diz Lord Thoth. “Era necessário algo novo! As bandas do Rio de Janeiro já não causavam reações no público. Essa nova onda de bandas de black metal no Rio de Janeiro é simplesmente a resposta a esse período de silêncio. Por exemplo, o Mysteriis foi uma banda que apareceu no momento certo, quando ninguém no Rio estava fazendo black metal moderno, original, altamente profissional em termos de música e visual. Por isso, eles receberam tanta atenção e se tornaram muito rapidamente uma mais importantes do black metal brasileiro.”

Além da coincidência de baterista, o Mysteriis e o Unearthly têm mais do que isso em comum, já que integrantes das duas bandas são protagonistas de um projeto paralelo que, em virtude da relevância dos envolvidos, já tem despertado interesse no underground. Trata-se de uma empreitada ainda envolta em certo mistério, chamada Black Winter Night. “Temos esse projeto realmente, mas é algo bem fechado e pequeno demais, dedicado apenas para amigos e verdadeiros apreciadores do black metal”, diz Mantus. “Esse projeto foi fundado por mim e quero manter preservado o nome, formação ou qualquer coisa do tipo. Espero que entenda. Mas posso dizer que temos uma demo, a qual foi distribuída em mínimas cópias apenas para os meus contatos mais próximos.” Lord Thoth referenda a posição reservada de Mantus quanto a esse assunto: “O projeto existe, sim, mas não gostaria de falar dele, pois o seu idealizador é o Mantus, do Mysteriis. Conseqüentemente, não cabe a mim falar sobre isso.”

Ainda ensaiando os primeiros passos, mas já dando mostras de que pode chegar ao nível das formações até agora citadas, chegamos ao Berkaial. Trata-se de um quarteto formado por Daemonthor (B), Astath (G), Seth (V) e Akanthus (D), cuja recém-lançada demo de estréia, auto-intitulada, escancarou todo o potencial do black metal cadenciado e mórbido do grupo. “Tudo começou por volta de agosto de 99, quando eu e Astath nos juntamos com nosso primeiro baterista para tocar metal extremo”, diz Daemonthor. “Após alguns ensaios, adicionaram-se os vocais de Seth, nosso atual vocalista. Por problemas internos, nosso primeiro baterista saiu, dando lugar a Akanthus. Também tivemos a participação de um segundo guitarrista, mas só até nosso primeiro show, em abril de 2001. Logo após esse primeiro show, entramos em estúdio para gravar o CD-demo. Nossas principais influências são bandas como Marduk, Bathory, Emperor, Dark Funeral, Darkthrone, Venom etc. Existem também bandas que não tocam necessariamente black metal, mas que nos influenciaram bastante, como Cannibal Corpse, Death, Morbid Angel e Monstrosity, principalmente porque a minha formação musical e a de Akanthus têm muito a ver com o death metal.”

Como novato na cena, o Berkaial não chegou a uma conclusão satisfatória acerca do porquê de o black metal carioca estar produzindo tantas boas bandas. “Talvez seja sorte, não consigo imaginar uma razão pela qual isso aconteça”, diz Daemonthor. “Já vi e ouvi ótimas bandas de todo o território nacional, deve haver um dedo do poderoso Satã nisso.” E aponta suas favoritas da cena local: “As melhores, na minha opinião , são as que possuem gravadora atualmente, no caso, Mysteriis, Unearthly e Nocturnal Worshipper. Mas existem bandas ainda no anonimato, como o Mistigo Vargoth, com grande chance na cena. Particularmente, esta é a banda que mais nos agrada ouvir.”

Apostando numa vertente mais tradicionalista de se fazer metal, o Apokaliptic Raids é o representante carioca das bandas que se inspiram exclusivamente no antigo death/black metal dos primórdios dos anos 80 para fazer seu trabalho. É o tipo de som que seguramente soa distinto daquele feito pelos outros grupos abordados nesse artigo, mas nem por isso é menos blasfemo e extremo, com influências admitidas de Hellhammer (claro), Venom, Possessed, Bathory, Sodom, Slayer (dos dois primeiros álbuns), Dorsal Atlântica, Vulcano e Mutilator. “Eu comecei a ouvir metal em 1983 e a tocar em 1985”, diz Leon ‘Necromaniac’ Manssur. “Para encurtar a história, o Apocalyptic Raids começou em 1997/1998, com uma formação diferente da atual, mas já com o objetivo de resgatar os princípios do metal da década de 80 e uma óbvia idolatria ao Hellhammer, meu gosto pessoal. No entanto, isto é algo mais que uma simples clonagem de timbres. Pode-se dizer que pesquisamos a história do metal. Viemos para perpetuar a maneira pela qual o Venom tomou a NWOBHM de assalto e mudou o metal para sempre, de maneira consistente, até a desvirtuação ocorrida por volta de 1989. Nossa própria originalidade surge e surgirá nesse caminho.” O Apocalyptic Raids já tem um álbum nas costas, Only Death Is Real (excelente, por sinal), mas desde então passou por diversas reformulações. Atualmente, sua formação é Leon ‘Necromaniac’ Manssur (G/V), A. ‘Sub Umbra’ Aguinaga (B) e Pedro ‘Skullkrusher’ Rocha (D) e o grupo até mudou de nome: hoje, chama-se Apokalyptic Raids. “Parece uma pequena mudança, mas, na verdade, é toda uma reestruturação do nosso som e postura”, diz Leon. “Esperem uma versão mais thrash e menos death do ‘Martelo Sul-Americano’. Na verdade, nossa proposta continua mais pura que nunca e vem se aperfeiçoando. Nada de evolução gratuita. No fundo, somos apenas fãs de Venom e Motörhead com muita energia pra gastar.”

Especificamente sobre o cenário black carioca, Leon diz que “rock pesado é sobre garotos cabeludos levando uma vida oprimida pelas megalópoles e com vontade de mandar tudo à merda.” Para ele, esse é o principal motivo para o crescimento do cenário local. “Afinal, de opressão e de mandar tudo à merda a gente entende”, continua. “O Brasil sempre gerou boas bandas de metal, e o black metal não é exceção.”

LADO NEGRO
Entretanto, nem tudo é assim tão bonito e edificante no egrégio black metal carioca. Sem dúvida, trata-se de uma das cenas mais promissoras do Brasil atualmente, que talvez dê ao mundo a nova sensação nacional do metal extremo, aquele que irá seguir os bem-sucedidos passos de Sepultura e Krisiun globo afora. Qualidade para isso não lhe falta, afinal, além das bandas já citadas, há outras que, se não são tão boas ou ainda não tiveram tanta exposição, podem dar muito o que falar no futuro breve. São grupos como Tetragrammaton, Black Communion, Kabarah, Farscape, Diabolic Force, Grave Desecrator, Imperador Belial, Viking Throne e muitos outros. Porém, é fato também que há algo de podre ocorrendo por lá.

A flagrante desunião – rivalidade, até – entre representantes importantes da cena, que já era bastante conhecida nos meandros da mesma, veio à tona nesta ROCK BRIGADE e tornou-se pública e notória desde então. Tudo começou na edição 185 da revista, quando o Nocturnal Worshipper deu declarações bastante polêmicas acerca do cenário carioca a este mesmíssimo redator. Pouco depois, na edição 187, sentindo-se atingido, o Mysteriis requereu um direito de resposta ao que tinha sido publicado na referida entrevista. Num longo texto, publicado na íntegra na seção ‘Banger News’, a banda não se furtou de dar nome aos bois e, enfim, escancarou de vez a treta toda. “O fato é que um episódio isolado de desunião tem sido muito mostrado”, opina Leon Manssur, discordando de que haja falta de união na cena local. “Com a escassez de recursos, no Rio, em se tratando de metal, muita gente tem mais de uma banda e praticamente todos são colegas de formação de todos. Como pode haver desunião assim, se não em episódios isolados? Estamos mais preocupados em tocar, produzir, gravar, divulgar, do que em saber quem deu a primeira porrada ou quem dará a última. O que aconteceu foi que uma briga pessoal foi levada à imprensa. Veteranos da cena se revelaram imaturos e antiprofissionais. O metal ficou em último plano. Todos os reais headbangers se sentiram ultrajados.”

Daemonthor também comenta acerca da suposta desunião do cenário carioca. “Com certeza não deve haver apenas uma razão para essa desunião”, diz ele. “Acho que a vaidade deve ser a maior razão, mesmo acreditando que desunião é coisa do passado. Não vejo mais tanta desunião quanto possivelmente se via antes, as bandas têm se unido muito mais.” Especificamente sobre o problema ocorrido entre o Nocturnal Worshipper e o Mysteriis, ele afirma, cuidadoso: “Com toda a sinceridade do mundo, não sei exatamente de nada do que aconteceu. Para não dizer que não sei de nada, sei do que li a respeito na própria ROCK BRIGADE e o que vieram nos contar. Eu não conheço ninguém de ambas as bandas, logo, não ouvi versão de história de ninguém, então tenho certeza de que não posso comentar nada a respeito para, exatamente, não falar besteira nem me meter em assuntos que, no caso, não cabem a mim comentar.”

A própria Thuringwithal prefere não dar muito mais pano pra manga e adota agora uma postura bastante resguardada na hora de falar sobre esse assunto, ainda que não deixe de lado a contundência. “Existe união na cena underground do Rio, porém, não entre as bandas que se intitulam black metal”, afirma ela. “Certas bandas de black metal que se dizem reais seguem as regras ditadas pela mídia, copiando bandas européias de black metal moderno, investindo apenas na imagem, se esquecendo do conteúdo ideológico, da honra e da moral que o movimento exige. Existem algumas bandas de thrash/death oitentista que, em termos ideológicos, sonoros e de atitude, superam infinitamente certas bandas de black metal daqui. Por isso, vemos entrevistas sem conteúdo ou com respostas pífias, dadas por membros de tais bandas oportunistas, os quais, por não conseguirem apoio de pessoas sérias, usam intrigas de forma covarde para provocar discórdia e tentar sustentar sua parasitária ideologia. Black metal é muito mais que estilo sonoro, imagem ou autopromoção. Black metal é força, honra, moral, seriedade, radicalismo, ideologia e atitude.” Com relação à briga com o Mysteriis, ela é sucinta: “Tudo o que tínhamos para falar sobre essa banda foi publicado resumidamente em nossa entrevista dada à ROCK BRIGADE de dezembro de 2001 [nº185] e encontra-se completa em nosso website. Cabe aos reais irmãos adoradores do verdadeiro metal obscuro julgarem nossas palavras e tomarem seus posicionamentos. Este assunto está encerrado para nós.”

Por outro lado, aqueles que estiveram – e estão – diretamente envolvidos no outro lado da briga não são assim tão diplomáticos. “A razão principal [para a desunião] é que algumas pessoas acham que black metal é palhaçada e que para ser respeitado ou coisa do tipo é necessário sair por aí falando um monte de asneiras sobre os outros”, diz Mantus. “Eles se esquecem do principal, que é o respeito. Então, pegam suas cruzes invertidas, vestem suas roupas pretas de bandas populares e saem por aí dizendo que têm uma banda de black metal, porém, sem nome, músicas, ideologia ou qualquer coisa do gênero. Mas uma coisa eles sempre têm: língua. E adivinha para quê? Para ficarem fofocando como mulherzinhas e falando mal das hordas que realmente lutam e defendem a verdadeira causa do black metal. Eu procuro ficar longe dessa cena de que todos falam, e da melhor maneira possível. Faço minha própria cena, fechada para esses vermes! Infelizmente, tem sempre alguém querendo ser mais ou melhor que os outros. Não que isso seja errado, pois acredito que somente pensando em evoluir é que nós conseguiremos alcançar algo de positivo, porém, esses querem crescer em cima de intrigas, polêmicas e coisas que só prejudicam ainda mais a união que supostamente deveríamos ter! Ao invés de lutarmos como porcos por um espaço mínimo que temos, deveríamos nos unir para conquistar um espaço maior, podendo propagar nossa ideologia de uma forma mais abrangente.”

Na hora de falar sobre o Nocturnal Worshipper e a famigerada briga ocorrida entre as bandas, Mantus não se intimida e reitera tudo que já disse sobre o episódio, ainda que se contendo de início. “Sobre esta briga, não tenho nada a dizer”, começa ele. “Talvez exista apenas uma palavra que defina o ponto principal: ‘inveja’! Algo que o Mysteriis teve da parte do verdadeiro público undergrournd brasileiro e até estrangeiro deixou os ‘noruegueses cariocas pagãos’ muito irritados. Quando se falava de Rio de Janeiro, o Mysteriis era o primeiro, e muitas vezes o único, nome a ser citado, e isso acabou deixando-os loucos de raiva. Mas essa raiva, inveja e desespero deles de certa forma acabou fazendo com que muito mais pessoas conhecessem o Mysteriis. Ou seja, tentaram se promover e acabaram é fazendo publicidade para nós!” Ele segue, mais incisivo: “Continuamos aqui prontos para entrar em guerra! Black metal é guerra! Estamos sempre presentes nos shows e correndo atrás desses adoradores de Jeová! Porém, eles, nossos inimigos, insistem em ficar em suas casas distribuindo flyers anti-Mysteriis, com erros de português, ou tentando difamar nossa integridade via internet etc. Isso me mata de rir! Pois, cá entre nós, essa não seria a atitude mais propícia para um auto-intitulado ‘guerreiro pagão’ tomar, mas sim para um homossexual. Uma coisa é certa, eles [Nocturnal Worshipper] não tocam mais no Rio de Janeiro!”

Quem também se viu envolvido nessa treta foi o pessoal do Unearthly, textualmente citado no direito de resposta do Mysteriis publicado pela RB. “A briga, segundo eu sei, existe há bastante tempo já”, afirma Lord Thoth. “Começou com pequenos desentendimentos e um tempo atrás chegou ao ponto de as duas bandas pararem de ter relações uma com a outra. Mas, sinceramente, essa briga entre o Mysteriis e o NW veio à tona e ficou muito mais extrema depois de o Unearthly também ter tido problemas com o Nocturnal Worshit. Nós tivemos os nossos problemas com essa bandeca e fizemos o que tínhamos que fazer. Primeiro eu e umas semanas depois o nosso baixista, M. Mictian, nos encarregamos de botar o líder dessa bandinha, Hofgodhar, no seu lugar. Na segunda vez, quando o M. Mictian deu uma surra no Hofgodhar, este foi dar queixa na polícia! Ele, que se diz ‘tirano do sul’, ‘black metal máfia’, fez uma babaquice dessas. Se ele foi homem para falar, por que agora não é homem para enfrentar as conseqüências? Que tipo de máfia é essa que procura ajuda e proteção na polícia? Que tipo de tirano é esse, que não aparece mais em nenhum show aqui no Rio, por medo de apanhar de novo?” Lord Thoth deixa bem clara sua posição frente aos fatos em questão: “O nosso posicionamento é contra o Nocturnal Worshit e qualquer idiota que ficar do lado deles, já que quem defende os falsos é falso também! Quero deixar claro que a briga e os problemas pessoais que o Mysteriis tem com o Nocturnal Worshit são diferentes dos que o Unearthly tem com essa mesma bandinha. Nós não compramos a briga do Mysteriis, nem eles a nossa. Eles tinham problemas com aquela bandeca e nós também, então, simplesmente nos aliamos para lutar contra um inimigo em comum. Primeiro, eu me encarreguei de dar umas porradas no Hofgodhar. Umas semanas depois, o M. Mictian deu uma surra no Hofgodhar, empurrando-o escadas abaixo, dando socos e pontapés na frente de muitas pessoas da cena carioca, num show que aconteceu aqui no Rio. Mas o que nós fizemos nunca foi em nome da briga entre o Mysteriis e o Nocturnal Worshit, foi tudo em nome dos problemas do próprio Unearthly com o Nocturnal Worshit. O espancamento do Hofgodhar pelo M. Mictian é um fato muito conhecido aqui na cena do Rio de Janeiro, mas foi conseqüência da briga Unearthly vs. NW e não Mysteriis vs. NW.”

Obviamente, é preciso ouvir a outra parte. Portanto, demos oportunidade de Hofgodhar se explicar acerca de tudo que foi dito acima. Primeiramente, sobre o inquérito policial por ele instaurado contra integrantes do Mysteriis. Diz ele, laconicamente: “O processo criminal que movi não é contra nenhum membro do Mysteriis, apesar de eles terem grande parcela de culpa no episódio ocorrido.” Também falamos sobre os citados flyers anti-Mysteriis, supostamente produzidos por ele e fartamente distribuídos no underground. “Os flyers foram feitos pelos nossos grandes amigos da Klozed Circle Productions, de Jundiaí, e são fruto das atitudes mercenárias e comportamento da banda citada num show realizado por eles nessa cidade [Jundiaí]”, afirma Hofgodhar. “Esse material teve grande repercussão e aceitação no Brasil inteiro, principalmente em todo o estado de São Paulo, muito antes de sabermos a respeito da circulação dos flyers, o que deixa claro que a citada banda não possui apenas problemas com o Nocturnal Worshipper. Não se pode enganar a todos o tempo todo! Suas máscaras caíram por suas próprias atitudes e não por boatos espalhados por nossa horda. Isso tem que ficar muito claro, pois é fácil atribuir a culpa a terceiros e esquecer-se dos próprios erros. Cada um sofre as conseqüências de seus próprios atos. Quando soubemos dos boatos e intrigas criados pela banda citada a nosso respeito, não hesitamos em tirar cópias dos flyers e divulgarmos os mesmos em nossas correspondências.” Por fim, a suposta surra protagonizada por M. Mictian e a decorrente treta com o Unearthly. “Não tínhamos problema com esse tal de Unearthly até o dia em que seu baixista, numa atitude impensada, resolveu covardemente tomar partido da briga com o Mysteriis, dando ouvidos a intrigas e boatos infundados criados pelos mesmos”, atesta o baixista. “Inclusive, num passado não muito longínquo, recebíamos e-mails de apoio de seu vocalista/guitarrista [Lord Thoth] e chegamos a esclarecer pessoalmente com o mesmo, em um show no Garage, alguns desses boatos que estavam circulando sobre o Nocturnal Worshipper difamar o Unearthly, o que definitivamente nunca havia sido feito por membro nenhum de nossa banda. Nessa ocasião, o próprio disse estar tudo resolvido, e fez questão de pagar-nos umas cervejas. Então, para nós, estava tudo esclarecido naquela data. Duas semanas depois, ficamos sabendo através de alguns amigos, o indivíduo estava novamente espalhando boatos sobre o Nocturnal Worshipper, inclusive pela internet. Então, mandamos e-mails para o mesmo pedindo esclarecimentos sobre o que ele estava dizendo. Em suas respostas, pediu-nos desculpas pelo erro cometido e implorou que nos encontrássemos para esclarecimentos novamente. Como já havíamos conversado anteriormente e pessoalmente, e vimos que o mesmo não honrou com sua palavra, achamos dispensável um novo encontro. Isso os deixou ofendidos, a ponto de o baixista enviar-nos uma carta questionando nossa moral e pedindo que não falássemos mais do Unearthly, mais uma vez influenciado por boatos de terceiros. Essa carta foi rasgada e devolvida para o endereço do remetente, juntamente com um bilhete nosso, no qual ressaltamos que não queríamos mais contato com ele ou com o outro moleque de sua banda, o mesmo com o qual já havíamos dialogado pessoalmente e por e-mail. Essa nossa ação foi o estopim para que o baixista tomasse a atitude de me agredir covardemente num show no Garage. Ele esperou que eu estivesse sozinho, enquanto ele estava sendo apoiado por vários outros caras que nem parte do movimento fazem. O mesmo está respondendo processo criminal por isso e poderá até ir para a cadeia. Ficaram insistindo num assunto que já estava resolvido, forçando a barra para a situação chegar ao ponto em que se encontra hoje. Quem sabe agora os membros dessa banda aprendem a honrar com a própria palavra, pois o baixista pode pagar um preço alto por tentar promover sua banda em cima dessa briga.”

Mantus, por sua vez, comenta justamente sobre este processo criminal e dá sua versão da briga. “Ele [Hofgodhar] acha que esse inquérito de merda irá torná-lo intocável, com peito de aço”, diz. “Agora não falo apenas pelo Mysteriis, mas sim por todos aqui que querem acabar com o circo liderado por esse Eduardo [Hofgodhar], apelidado também como ‘azeitona negra do inferno’. O primeiro a dar um susto nele foi o vocalista do Unearthly, Lord Thoth, que em um show no Rio fez dele boneco joão bobo. Em seguida, o nosso baixista Satanachia, em um show em Juiz de Fora, deixou o ‘grande guerreiro norueguês’ caído no chão depois de uma porrada, e o otário sequer olhou na cara do nosso baixista. Então, passaram-se uns meses e as coisas começaram a esquentar, até que o M. Mictian deu uma surra nele aqui no Rio, deixando-o de quatro na frente de todo o público presente no show do Intelectual Moment. Foi a partir desse episódio que o Eduardo se fechou em casa, não saindo para shows aqui no Rio, ou seja, foi literalmente expulso da cena! Ele pode dar queixa na polícia e tudo o mais que ele quiser! Seremos presos e quando sairmos iremos bater novamente! Essa é nossa meta! Eles [NW] não fazem mais parte da cena carioca! Ponto final! Quero ver quem vai dizer o contrário disso na nossa presença! Na minha opinião, quem gosta de música de bicha é bicha também! É melhor mesmo esse Eduardo ficar fechado dentro de sua casa, pois, se ele sair, será massacrado!”

Não precisa ser muito gênio para deduzir que todo esse panorama de ameaças tem gerado polêmicas e mais polêmicas, além de um diz-que-me-diz-que que cresce diariamente. “Aqui, todos sabem de ponta a ponta a verdade sobre tudo”, afirma Mantus. “Essa guerra era pessoal, nunca a tornamos pública! Mas eles [NW], não satisfeitos, mais uma vez tentaram se aproveitar do black metal para criar sua polemicazinha particular, falando tudo aquilo sobre o Mysteriis na entrevista deles dada [à RB] algumas edições passadas. O black metal está acima dessa porcaria toda e, no nosso ponto de vista, essa desavença deveria ter sido resolvida na base da porrada, como já fizemos. E, ainda assim, tomando-se as devidas proporções, ou seja, nada envolvendo todo o cenário nacional, como eles tentaram propor. Até um acordo eles já tentaram conosco, mas nós não fazemos acordos com homossexuais cristãos! Apenas deixo claro que ninguém tem nada a ver com nossos problemas. Se alguém se meter, sairá no prejuízo, eu garanto!” Lord Thoth emenda: “Para o Unearthly, agora todos sabem do que somos feitos e o que somos capazes de fazer”, afirma. “Os idiotas do Nocturnal Worshit pensam duas vezes agora antes de falar mal do Unearthly. Já houve outros babacas também querendo difamar o Unearthly e encontraram o mesmo destino que o idiota do Hofgodhar encontrou. Além disso, outra das conseqüências foi a formação de uma aliança entre bandas de black metal aqui no Rio de Janeiro, feita para acabar com as fofocas e intriguinhas de falsos que infestam a cena carioca. Mas nunca brigamos para obter fama ou reconhecimento, simplesmente fizemos o que tínhamos que fazer para defender o nome da nossa banda. Sempre fizemos o que pregamos e nada vai nos impedir de continuar dessa maneira. O black metal é guerra e nós estamos preparados para lutar.”

“A maioria está neutra sobre isso, e respeitamos a opinião das pessoas”, opina Thuringwithal. “Não temos objetivo de dividir a cena, e sim de mostrar suas fraquezas para que a mesma mude e se fortaleça. Isso, em nossa opinião, deveria ser feito por todos. A cena carioca está cheia de fazedores de média, pois muitos têm medo de falar a verdade e revelar o que está errado, pois acham que podem sofrer algum tipo de represália.” Ela continua: “Radicalismo é atitude! Nenhum cenário underground no Brasil é perfeito e o do Rio de Janeiro está muito longe disso. Ser omisso não ajuda a cena em nada. Enquanto as pessoas não tomarem a atitude de mostrar suas opiniões, nada mudará. O Nocturnal Worshipper é uma banda polêmica, pois sempre fizemos questão de expressar nossas idéias e, quando perguntam nossa opinião com relação a algum fato, não temos medo de dar a cara para bater. Somos sinceros, encaramos isso como uma virtude, e, ainda que soframos conseqüências por isso, nunca mudaremos nosso caráter.”

Agares, do Mysteriis, também dá sua opinião sobre o radicalismo da cena carioca: “Não era essa a medida que gostaríamos de tomar. Queríamos que as bandas cariocas fossem todas unidas e lutassem pelos mesmos ideais, porém, como isso está sendo impossível, a melhor maneira de resolvermos tudo é com radicalismo e extremismo, tirando do movimento aqueles que se aproveitam da nossa luta para conquistar um espaço não merecido.” Lord Thoth tem um posicionamento semelhante: “Acho que a radicalização tem que existir para limpar a cena, que está infestada de falsos. O black metal é um movimento para os fortes e, então, somente os fortes devem permanecer na cena. Isso só se consegue fechando o espaço e deixando entrar somente aqueles que fazem o que pregam. Dentro do black metal, não dá para cantar sobre uma coisa e ser totalmente diferente no cotidiano. Black metal é mais do que um estilo de música, é filosofia, é atitude, é estilo de vida. Então, só aqueles que são capazes de fazer o que pregam devem permanecer na cena, todos os outros serão apagados. Tem muita gente de fora do movimento black metal, desinformada, falando mal do black metal em geral, das bandas, do público, das atitudes. Isso é devido à enorme quantidade de falsos que existem dentro do black metal e que se comportam como verdadeiros imbecis, dando, assim, uma idéia errada do que o black metal realmente é. Isso deve acabar, o black metal tem que voltar a ser um movimento somente para os fortes, somente para aqueles dispostos a entrar em guerra a qualquer momento para defender os seus ideais.”

Quem vê mais de longe esse cenário de aparente loucura envolvendo a tríade Nocturnal Worshipper-Mysteriis-Unerathly tem posições mais, digamos, razoáveis e ponderadas sobre a crescente radicalização do black metal no Rio. Leon Manssur, por exemplo, limita-se a dizer: “Eu sou radical em defesa do metal. As pessoas têm que defender aquilo em que acreditam com toda a eloqüência.” Já Daemonthor confessa um certo desconforto com o que vem ocorrendo. “Tudo isso tem soado bastante mal, aqui dentro e lá fora, principalmente”, diz ele. “Todos nós ficamos com um certo aspecto de encrenqueiros, entre outras coisas. Na minha opinião, tudo não passa de um mal-entendido. Acho que a cena carioca não deveria ficar com essa imagem por causa da briga de uns e outros, não podemos generalizar.”

MÁFIA
Dentre as muitas declarações dadas por Lord Thoth a esta matéria até agora, uma chama especialmente a atenção: “(...) Outra das conseqüências foi a formação de uma aliança entre bandas de black metal aqui no Rio de Janeiro.” Parece ser a confirmação de que uma máfia, aos moldes do Inner Circle norueguês, de fato instalou-se no Rio de Janeiro, como há muito desconfiava quem via a coisa de fora. Mesmo assim, o assunto ainda é motivo de muita controvérsia e opiniões díspares.

“Definitivamente, não existe nada disso por aqui”, atesta Hofgodhar. “Alguns membros de certas bandas cariocas nem sequer conhecem a verdadeira história e ideologia do Inner Circle norueguês, muito menos acompanharam tudo o que aconteceu naquela época. Aliás, alguns deles provavelmente nem ouviam heavy metal em 91, 92! Temos, sim, algumas bandas que se intitulam parte do black metal, mas que são formadas por playboys, lutadores de jiu-jítsu e freqüentadores de boates, que há pouco tempo atrás diziam que usar corpsepaint era ridículo e que o black metal era uma palhaçada. Hoje, esses indivíduos querem fazer do movimento underground daqui uma espécie de baile funk, juntando meia dúzia de pessoas com mentalidade de funkeiro favelado, achando que atitude é andar armado ou dizer que conhecem bandidos para tentar intimidar os outros, induzindo as pessoas a dizer que os apóiam, o que é profundamente risível e lamentável.”
“O chamado Inner Circle escandinavo nos deu um par de bons álbuns do Immortal e do Mayhem”, afirma Leon Manssur. “O Darkthrone se mantém até hoje com bons discos, e é só. Não sei de nenhum Inner Circle no Rio. Será que o país que gerou a fúria bastarda do Sarcófago precisa copiar os noruegueses?” Daemonthor: “Não acho que [a existência dessa máfia] seja verdade. Na minha opinião, as pessoas começam a achar isso porque aconteceram brigas, mas isso acontece em todo lugar. Claro, a coisa aqui foi muito mais séria, mas não acho que exista tal máfia. O que pode existir são bandas que realmente seguem à risca todos os costumes e polêmicas de bandas pioneiras do black metal norueguês, coisa que eu sou totalmente contra.”

“Não sei nada sobre máfia no Rio”, jura o próprio Lord Thoth, autor da declaração que abre esta última parte desta reportagem. “Existe, sim, um movimento chamado Black Circle, formado pela elite do black metal nacional, mas não foi formado nos moldes do Inner Circle norueguês. Estamos a muitos quilômetros de distância da Noruega, vários anos já se passaram desde os tempos de glória do Inner Circle norueguês, não tem sentido querer fazer uma coisa parecida aqui no Brasil.” Mas, se existe um ‘Black Circle’, do que se trata? “O Black Circle começou aqui no Rio, sim, mas não é somente do Rio de Janeiro. Somos um grupo de bandas aliadas que tem como objetivo tirar da cena todos os falsos. Aqui no Rio, já tivemos a oportunidade de atuar algumas vezes com sucesso e, como resultado, as pessoas na cena agora sabem que não podem sair falando besteira por aí, pois estamos olhando o tempo inteiro. Não somos uma máfia, somos uma aliança entre bandas que ficaram cansadas de tanta palhaçada, fofoca e intriguinhas e decidimos nos unir para acabar com isso, em prol do black metal brasileiro.”

Além do Unearthly, também o pessoal do Mysteriis está envolvido com essa chamada aliança. “Isso é algo que não quero expor por inteiro, mas posso adiantar que nada tem a ver com o falado Inner Circle norueguês”, afirma Mantus. “Nós realmente nos dividimos! Não uma região da outra, ou uma banda da outra, mas sim os fortes dos fracos. Nossa luta é acabar com a falsidade e a cristandade presentes no cenário, não só carioca, como brasileiro também. Nosso círculo negro é algo aberto para aqueles que querem lutar de verdade em prol da cena black metal brasileira. Apenas unidos é que conseguiremos acabar com toda essa mediocridade que assola o nosso meio underground. Essa suposta máfia, ou aliança, como eu prefiro chamar, tem membros em todas as partes do Brasil e não só no Rio. A questão não é ‘esteja conosco ou morrerá’, mas sim mostrar que nosso esforço em nome do black metal nacional não será estragado por meros cristãos oportunistas presentes na cena. Antes de tudo, respeitamos os outros e, logo, queremos ser respeitados. Ninguém é obrigado a gostar do Mysteriis ou de outra determinada banda, apenas não saiam falando merdas por aí sobre o Rio ou sobre as hordas que integram nosso círculo.”

O próprio Hofgodhar admite a existência de uma suposta organização dentro do cenário black metal nacional. “Há, sim, uma máfia em nível nacional, uma grande união das verdadeiras e sérias hordas de black metal, que luta contra a hipocrisia e o oportunismo promovidos pela escória infiltrada na cena underground hoje”, diz ele. “Tudo o que o black metal havia vivenciado de 1980 a 85 sintetizou-se e desenvolveu-se devido aos fatos ocorridos na Noruega de 1991 a 93, quando a atitude altamente extrema de um círculo criado pelas bandas da cena daquele país, o chamado Inner Circle, tomou proporções que revolucionaram toda a cena mundial, fazendo com que o black metal ressurgisse de forma avassaladora, difundindo uma ideologia totalmente niilista e anti-humanista, aliada a um extremismo musical nunca visto anteriormente. Isso é atitude, isso é moral! E o Brasil tem um cenário com um enorme potencial, basta trabalharmos em prol disso. Da elite para a elite!”

Para finalizar, é importante ressaltar que a ROCK BRIGADE não necessariamente concorda ou compactua com as opiniões emitidas neste artigo, tampouco está preocupada em tomar partido, de que lado seja, das brigas e polêmicas envolvendo o cenário carioca. O intuito dessa matéria é mostrar o lado positivo e o lado não tão legal assim do que ocorre naquela prolífica cena, delegando a cada leitor a responsabilidade de decidir quem está certo, quem está errado; quem é melhor, quem é pior. Interessa-nos exclusivamente, portanto, a música extrema que vem sendo feita por lá. E esta, sem dúvida, é da melhor qualidade.

 

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