AZUL LIMÃO Quando uma banda de rock nasce ? É quando nasce a idéia do nome na cabeça de algum dos futuros integrantes ? É no dia do primeiro ensaio ? É no dia em que foi composta a primeira música ou nasceu o primeiro riff ? É no dia do primeiro show ? É difícil decidir, mas o fato é que, em algum dia de outubro de 1981, Marcos Dantas e Vinícius Mathias conversavam para escolher o nome da banda que eles tinham formado apenas para tocar num festival de um colégio junto com Beto Martins na guitarra/vocal e Sales na bateria. Foi quando Vinícius falou: “Porque não Azul Limão ?” O nome, entre muitos que estavam sendo cogitados na época, tinha sido sugerido dias antes pelo Fábio, o baterista que substituiu Sales após o festival, claro que em tom de brincadeira pois tinha acabado de vê-lo em uma tira de quadrinhos (Hagar) de um jornal. Sem conseguir arrumar um vocalista de rock bom o suficiente para levar um trabalho a diante, a banda acabou mas o nome ficou no ar. Além do nome, pouca coisa restou desta época quando só tocavam covers e tinham apenas duas músicas próprias “Gdansk” e “Ruas do centro”, ambas composições do Beto, que não foram gravadas. Em 1982, Marcos entrou no conjunto de rock´n´roll Turbo. O momento era de boom das bandas de rock nacionais e o cenário no Rio de Janeiro começava a explodir com o Circo Voador e a Rádio Fluminense FM. No começo de 1983, após alguns shows com o Turbo, Marcos decide montar uma banda de rock pesado, usando o nome Azul Limão. Para o vocal chama Rodrigo Esteves, o irmão mais novo de um amigo seu da praia de Ipanema que tocava em outra banda de rock local – Massa Falida. Rodrigo apresentava um estilo de cantar muito particular e bastante apropriado para o rock pesado. Naquela época, todos entre 15 e 25 anos, tocavam em alguma banda de rock ou algo parecido. Era um tipo de mania nacional. No entanto, para o rock pesado haviam poucas referências nacionais. Estava acontecendo no exterior um renascimento do Heavy Metal e isto influenciou muito uma nova geração de músicos roqueiros que orientou toda sua sonoridade para o peso da bateria, a distorção da guitarra e a ultrapassagem dos limites vocais. Depois de alguns bateristas “mais leves”, Ricardo Martins, com sua pegada pesada, conquistou a vaga. Para o baixo, depois tentar com alguns amigos, Marcos pensou: “Se é Azul Limão, porque não Vinícius Mathias ?”. Sem perder tempo, Vinícius aceitou o convite e partiram para os ensaios. A “química” da banda funcionou e rapidamente já estavam compondo alguns rocks para compor o repertório da banda que já incluía covers do AC/DC e Judas Priest. Repertório pronto, decidiram gravar uma demo-tape com três rocks: “Azul Limão”, “Pégasus” e “Johnny Voltou”. Para isto, alugaram um estúdio e, com apenas um período noturno de 6 horas, gravaram e mixaram sua primeira demo-tape. O interessante desta gravação é que voz da namorada do baixista aparece no final de “Johnny Voltou” e ninguém exatamente se lembra como isto aconteceu tal era o cansaço dos integrantes no final da sua primeira gravação. Fita de rolo na mão, foram direto para a Rádio Fluminense FM e deixaram a fita original, um release e uma foto da banda para avaliação dos programadores. Não fosse uma cópia caseira tirada antes de entregar a fita, hoje ninguém poderia escutar esta gravação. Semanas depois, sem ter notícias do resultado da avaliação, veio a notícia: “..a rádio perdeu a fita ou apagou por engano, desculpem..”. Neste momento aprenderam duas coisas: “nunca entregue um original, sempre entregue uma cópia” e “it´s a long way if you wanna rock´n´roll”. Ainda em 1983, começaram os shows. Em outubro, depois de uma mini temporada no bar Western Club, gravaram sua segunda demo-tape, com duas músicas: “Não vou mais falar” e “Grito de Amor”. Esta seria, 3 anos depois, reformulada e regravada com o nome de “O Grito”. Entregaram a fita, agora uma cópia, na Fluminense FM para ver o que acontecia. De repente, ainda em outubro, a rádio começou a executar “Não vou mais falar” em sua programação normal e do dia para a noite a banda passou a ser popular no Rio de Janeiro. Neste ano, durante um show no antigo bar Mamma Lia, localizado na rua Prado Junior em Copacabana conhecida pelas boates de striptease e com grande movimentação noturna, a banda teve sua primeira experiência com a polícia. Como o nome Azul Limão não dava noção exata ao contratante de que tipo de banda de rock ele estaria contratando, alguns minutos depois de começado o show o estabelecimento já estava “ecoando” pelas redondezas. Os amplificadores estavam no 10 e a bateria era tocada com tamanha fúria que as garrafas de vinho das paredes pareciam que iam cair. O público, constituído em quase sua totalidade de cabeludos vestindo camisetas pretas, assustava o dono do lugar. O show ainda não havia terminado mas várias patrulhas da PM já estavam no local, a pedido da vizinhança, para “acabar com o barulho”. A banda percebeu que, mesmo num local tradicionalmente boêmio, deveriam procurar locais especializados para seu tipo de som, mas isto limitaria tremendamente as possibilidades de shows. Diante disto, decidiram que iriam em frente criando “na marra” seu próprio espaço, se valendo do artifício de ter um nome “leve” que facilitaria a entrada em lugares “proibidos” para o rock pesado. É claro que a polícia sempre apareceria para “acabar com o barulho” e não foi diferente nos próximos anos. Em janeiro de 1984, empolgados com a execução na rádio, gravam uma terceira demo-tape, sempre num esquema barato usando um período de 6 horas de estúdio, com mais três músicas próprias: “Artistas em Cena”, “Brilho” e “Johnny Voltou”, esta com um novo arranjo. A Fluminense FM passa a executar “Artistas em Cena” e “Brilho” na sua programação e o “Azul Limão” passa a ser bastante conhecido no circuito rock do Rio de Janeiro já formando um público fiel que o acompanhava em todos os shows pela cidade. Intensificam-se os shows, já utilizando quase que apenas repertório próprio, e a banda vai adquirindo experiência de estrada aos poucos. Não havia um empresário para tratar dos negócios da banda e todos aprendiam com seus erros. Em fevereiro, no clube dos 500 em Caxias depois do Azul Limão abrir um show do Herva Doce, Marcos foi procurar o promotor do evento para receber o cachê quando presenciou a seguinte cena: “..Não tenho a grana..” – dizia o promotor - “Não quero saber, sem grana o Herva Doce não entra no palco” – retrucava o empresário que parecia estar armado. Depois de muita discussão e de parte do cachê na mão do empresário, o Herva Doce começa o show. Já de madrugada, após o show, procuravam o promotor: o Azul Limão, o pessoal do Som e o pessoal da Iluminação. Todos tinham levado um grande calote. Aprenderam no bolso: cachê sempre antes do show ! A banda ainda não tinha noção da sua popularidade e isto ficou claro num festival de rock ao ar livre em Macaé em novembro de 1984. Por causa de uma chuva fina que começou no meio da apresentação do Azul Limão, a organização do evento pediu para que a banda interrompesse a apresentação ( risco de choque elétrico ). A adrenalina era tamanha, tanto na banda quanto no público, que nenhum dos integrantes percebia os acenos desesperados do técnico de som. O ápice foi a versão “heavy metal” para o clássico da MPB “Maria Maria” que encerrou o show com músicos e públicos molhados mais felizes. Já no ônibus, voltando para o Rio de Janeiro, depois de receber elogios da organização e das outras bandas, souberam que seu cachê tinha sido o menor, muito pouco se comparado aos outros. Era o momento de arrumar um empresário, mas quem ? Ainda no final de 1984, chamam a atenção do selo B.B. Records, de Billy Bond, que os convida para gravar um compacto com duas músicas ( já heavy metal ): “Satã Clama Metal” e “Sangue Frio”. A gravação ficou pela metade pois o selo desistiu de lançar o compacto porque o som era muito pesado e não poderia ser executado nas rádios FM mais populares. Este foi o primeiro e único contato da banda com um estúdio de 24 canais e todo seu aparato tecnológico, pois o B.B. Records utilizava o antigo estúdio da Polygram, no Rio de Janeiro. Marcos voltaria para lá sete anos depois para gravar o álbum Animal House do X-Rated. Até então o Azul Limão só utilizava estúdios de 8 canais com recursos mínimos e tempo reduzidíssimo para gravar suas demo-tape. No começo de 1985, o grupo utilizava como demo-tape uma “cópia de monitor” do que seria o compacto, feita em fita cassete durante as gravações. A partir daí, resolveram expandir seus horizontes tocando fora do Estado do Rio de Janeiro. Conseguiram que esta demo-tape fosse tocada na rádio 97 FM de Santo André que, na época, era preferida dos roqueiros paulistas. Na ocasião juntaram forças com os amigos da Dorsal Atlântica para uma série de shows. O que não faltam são histórias curiosas destes “shows conjuntos”. Uma delas ocorreu numa mini temporada no antigo teatro Lira Paulistana, em maio de 1985, em São Paulo. Telefonamos do Rio e o organizador nos garantiu que já tinha todo o equipamento de som no local e que não seria necessário levar nada. Chegamos atrasados no local para “passagem de som” quando constatamos que “todo o equipamento” era apenas o P.A.. Não havia amplificadores de guitarra e de baixo e nem bateria. Só tínhamos levado alguns pratos, caixa e obviamente guitarra e baixo. Faltava uma hora para o show quando, desesperados ligamos para nossos amigos do VIRUS e pedimos socorro. Cássio, o baixista, falou que os amplificadores seriam muito difíceis de conseguir até a hora do show mas que a bateria, o Caio, o baterista, poderia emprestar. Ligamos para o Caio que rapidamente pegou um táxi com toda a bateria, em plena “hora do rush” paulistana, e a levou para o teatro. Sem amplificadores para o palco, ligamos guitarra e baixo diretamente na “linha”, ou seja, direto no P.A. O som estava horrível mas as bandas tocaram com uma garra impressionante e tamanha era a sede do público por heavy metal que a “mágica” aconteceu naquelas noites paulistanas. Outro fato gozadíssimo aconteceu num festival em agosto de 1985 na Faculdade de Viçosa, Minas Gerais. Como todo bom turista, um dia antes do show, os integrantes do Azul resolveram visitar as boates do local. Quando finalmente voltaram ao hotel da Faculdade, às cinco da madrugada, encontraram o vigia dormindo. Até aí, normal. O problema foi que o dito cujo tinha um sono pesadíssimo. Resultado: até as oito da manhã, os quatro integrantes da banda ficaram esmurrando a porta, atraindo até a atenção de um guarda que passava pelo local. Dia claro, finalmente o porteiro se levanta com aquela cara de “oh, vocês estavam aí?” e deixa a turma entrar. Cada um vai para o seu quarto, se joga na cama e se prepara para um longo e merecido sono. Que viria fácil, caso um sujeito não estivesse emitindo uns ruídos estranhos no sax no quarto ao lado. Quando Marcos finalmente se queimou e saiu para dar um jeito no barulho, encontrou mais de 50 estudantes amontoados no corredor, de gravadores em punho. Eles imaginavam que o “road” do Hermeto afinando o sax fosse o próprio Hermeto Paschoal improvisando. Não era, mas até provar que elefante não é pulga, o pessoal do Azul Limão não conseguiu pregar os olhos até a hora do show. Nesta época, com o primeiro Rock´n´Rio e uma quantidade crescente de rádios FM se dedicando exclusivamente ao rock, começou um forte movimento de bandas, que já tinham criado uma cena heavy metal underground paralela à cena das bandas do chamado Rock Brasil. Uma revista carioca (Metal) e outra paulista (Rock Brigade), ambas com distribuição nacional, se encarregavam do registro e da divulgação impressa desta cena “heavy”. O jargão “Metaleiros” começou a ser muito usado na mídia “não especializada”. Até então, muitos shows e festivais eram feitos misturando-se bandas e artistas de estilos diferentes. O Azul Limão já tinha dividido o palco com Ângela Ro Ro, Hermeto Paschoal e muitos outros artistas das mais diversas correntes musicais sem nenhum problema, mas neste ano os organizadores começaram a criar nos festivais um dia reservado para o som mais pesado. Estava sendo criado “o dia dos metaleiros” ou “o local de shows para os metaleiros”. Esta segmentação forçada diminuiu as possibilidades de shows para todas as bandas de metal e o Azul Limão não estava fora disto. Como não havia um interesse relevante das grandes gravadoras em viabilizar comercialmente este cenário, já chamado de “Metal Nacional”, quase nenhuma banda da época foi contratada por estas gravadoras. No entanto, muitas lojas de discos especializadas no gênero começaram a criar selos para lançar as bandas de heavy metal nacionais. Em janeiro de 1986, a banda decide gravar uma nova demo-tape para tentar um contrato com um destes selos. Em três períodos de seis horas de estúdio, gravam seis músicas: “Não vou mais falar”, “O Grito”, “Sangue frio”, “Você não faz nada”, “Satã clama metal” e ”Vingança”. Esta última, por problemas na gravação, não foi colocada na demo-tape. José Nilton, do selo carioca “Heavy”, fez uma proposta para lançar o primeiro álbum da banda a partir da própria demo-tape adicionando mais algumas músicas para completar a duração de um LP. Estas deveriam ser gravadas no mesmo estúdio para manter a mesma sonoridade. A banda aceitou a proposta e partiram novamente para estúdio Master com seus oito canais e muita disposição do técnico Leco. Regravaram “Vingança” e “Satã clama metal” e completaram a fita com “Abertura”, “Portas da imaginação” e “Fora da lei”. As vendas superaram as expectativas do selo e da banda. Empolgados com o sucesso do LP “Vingança”, o Azul Limão encerra o ano em novembro com um show memorável no Circo Voador junto com outras bandas do cenário heavy metal nacional: Stress e Dorsal Atlântica. Em março e abril de 1987 gravam algumas músicas planejando um próximo álbum, mas o selo heavy está ocupado com outros grupos e não garantiria o lançamento naquele ano. O selo “Point Rock”, da loja homônima do casal Sérgio e Rita, se interessa em lançar o trabalho e num acordo com a “Heavy” adquire a fita. Neste meio tempo, alguns problemas vinham acontecendo no Azul Limão. Ricardo e Rodrigo já não se falavam muito bem desde um acidente de carro envolvendo os dois. A banda já não se reunia mais para ensaiar e Ricardo vinha se atrasando nos shows até que, em agosto de 1987, no Caverna II, este atraso provocou o pagamento de uma multa descontada do cache da banda e, obviamente, imediatamente descontada da parte do baterista. Foi uma decisão difícil mas a conclusão veio do próprio Ricardo: “assim não dava para continuar na banda”. Ricardo ainda fez mais um show com a banda em setembro abrindo um show do “Made in Brazil” no Teatro Ipanema que também serviu como sessão de fotos para o futuro álbum “Ordem & Progresso”. Ainda em setembro, o paulista Alexandre Reis assumiu a bateria num show em Rio Novo, Minas Gerais. No final do ano foi lançado o novo álbum, um EP, com as músicas: “Ordem & Progresso”, “Brilho”, “Tema de Primavera (Vivaldi)”, “Rotina”, “Solidão” e “Princesa do Prazer (Dorsal)”. As gravações tinham sido feitas ainda com Ricardo na bateria mas o álbum foi divulgado durante o ano de 1988 com o novo baterista. Durante o ano de 1988 o heavy metal brasileiro começou a ficar bastante conhecido no exterior através de bandas que cantavam em inglês e faziam um metal mais agressivo que o tradicional. O cabeça desta nova geração de bandas foi, sem dúvida, o Sepultura. No segundo semestre, o Azul Limão parou. Estava completamente “fora de moda” cantar em português e a banda perdia o interesse do público a cada show. A Point Rock estava planejando lançar uma versão em inglês do “Ordem & Progresso” e para isto bastava o Rodrigo gravar o novo vocal sobre as bases já gravadas do álbum. Muitas bandas começaram a compor e converter suas letras para o inglês e entre elas estavam as da cena original como: Dorsal Atlântica, Taurus, Overdose e muitos outros. O Azul Limão cada vez mais ficava distante da nova cena do metal. As “versões” das letras foram feitas mas Rodrigo não se sentia confortável em cantá-las. Um convite para cantar ópera na Espanha ( desde 1987 ele já se dedicava ao estudo de ópera ) apagou de vez o sonho de viver de rock de sua cabeça. Afinal, todos tinham começado a banda sem muitas pretensões comerciais e a cobrança de fazer do Azul Limão virar um emprego acabava com a magia da época em que era pura diversão. Com a saída do Rodrigo, Vinícius abandona o barco também. Ainda fizeram um show de despedida em janeiro de 1989. Ainda em 1989, Marcos reúne amigos de outras bandas para fazer três shows usando o nome Azul Limão: André Chamon ( Stress ) na bateria, Tavinho Godoy (Metalmorphose) no vocal e Augusto no baixo. Celso Sukov (Metalmorphose) também participou como guitarrista convidado destes shows. Após o show, junto com o Viper, no Dama Xoc em São Paulo, todos se empolgam e decidem registar duas composições novas em uma demo-tape: “Amazônia” e “Nada a perder”. Marcos envia a demo-tape para alguns selos mas não obtém resposta positiva. Após o último show, em julho de 1989, no então “templo do metal carioca”, o Caverna II, a banda encerra atividades. Marcos e André formam o X-Rated. A banda ainda chegou a se reunir, anos mais tarde, com sua formação original, em duas oportunidades nas quais o Rodrigo esteve de férias no Brasil: 31 de julho de 1993 e 26 de agosto de 1995, no Garage, o local preferido das bandas underground da época no Rio de Janeiro. Todos recordaram os bons tempos e a “mágica” esteve presente novamente por algumas horas naquelas noites de inverno. Escutando-se hoje, duas décadas depois, percebe-se que as letras eram ingênuas e as gravações precárias mas o heavy metal feito pela banda ainda continua extremamente original criando um estilo próprio com a marca Azul Limão. Mais
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